Novos Caminhos, Velhos Trilhos

dezembro 12, 2012

A FÉ DAQUELES QUE O MUNDO NÃO ERA DIGNO (HEB.11.38)

Filed under: Estudos,Teologia — sdusilek @ 8:44 pm

A FÉ DAQUELES QUE O MUNDO NÃO ERA DIGNO (HEB.11.38)

Ou ainda: Quando os Mortos Falam

É possível a um morto falar? Não estou falando nem entrando no mérito de encontros espíritas. A Bíblia é muito clara a esse respeito. Mas, por exemplo: já passou por alguma experiência de vida na qual você lembrou claramente do exemplo, da fala, do olhar de alguém que já foi para a eternidade?

Há pessoas que marcaram o mundo pela sua genialidade. Falamos até hoje de Sócrates, Platão, Aristóteles, Kant, Hegel. Há outros que marcaram gerações pelo engajamento. Como não recordar de Martin Luther King Jr., Gandhi, Mandela, Madre Tereza de Calcutá? Outros pela coerência de vida como Bonhoefer, John Huss.[1] O comum a todos estes: eles transcenderam a mesmice. Viveram suas vidas de modo abnegado. Serviram a ideais e aos seus semelhantes.

Mas falta a lista daqueles que marcaram pela fé. Que foram o ponto de tangência entre o Eterno, a realidade supra-sensível e este mundo terreal. De tantos possíveis exemplos, vamos ficar com o de Abel.

1)    QUEM ERA ABEL (Gen.4:1-15; I João 3:12; Mt.23:35; Heb.12:24)

Abel é apresentado como o segundo filho entre Adão e Eva. Interessante no entanto é que ao longo das páginas sagradas há mais citações de Abel do que onde ele primeiramente aparece (Gen.4). Sua vida foi resumida a um culto. Mas esse ato de adoração disse tanto a respeito dele e de Deus que até hoje falamos nele, mesmo sendo ele de uma época em que não havia papel, nem arquivo (diferente de Sócrates). Abel se tornou uma vida que fala depois de morta.

Ele era pastor de ovelhas. Suas obras eram boas, não por conta do tipo de sacrifício que ele fez, mas pelo coração com que ofertou. Não foi o preço em si, mas o valor que ele deu aquele ato de culto. Esse valor fica patente quando percebemos que Abel não só traz uma “excelente oferta”, mas também quando percebemos seu cuidado e preparo para esse momento mostrado no fato de separar “as primícias”.

Era um cara de paz. O irmão com semblante transtornado o chama. Ele vendo isso vai encontrá-lo. E ouso dizer que não ofereceu reação. Foi como ovelha para o matadouro, assim como aconteceu com o Cordeiro que ele sacrificara.

2)    VIDAS DAS QUAIS O MUNDO NÃO É DIGNO SÃO AQUELAS QUE A MORTE NÃO AS CONSEGUE CALAR. (Heb.11:38,4; Gen.4:10)

São vidas que por mais ou menos tempo que vivam deixam um lastro e um rastro.

O rastro que Abel deixou, as pegadas que formaram um caminho estão ligadas a sua compreensão da natureza humana e a sua percepção sobre Deus. Certamente que Abel (Deus sim, Abel não) não tinha ciência ali que o cordeiro seria a figura bíblica para apontar e simbolizar o sacrifício perfeito (Heb.10) de Jesus. Aquele que anularia a necessidade de QUALQUER outro.

Mas fato é que Abel teve a compreensão da seriedade do pecado, de sua interposição na relação com Deus e que uma vida inocente teria de fazer a expiação. Algo tem que ficar entre nós e Deus. Precisamos de uma mediação, papel esse que Cristo irá personificar de uma vez por todas (I Tm.2:5; Heb.12:24). Nesse sentido, antes de qualquer fala explícita sobre a Graça, Abel aponta para ela, assumindo-se naquele altar como pecador e contando com o perdão de Deus.

Essa adoração se tornou um paradigma, um modelo. Sem música. Sem som. Contudo reverberando até a presente data. Quando adoramos com consciência de que é pela Graça, Deus nos percebe e “vem em nossa direção”. O autor de Hebreus no final do capítulo doze vai falar (devido a sua compreensão judaica de Deus) de irmos até o “monte santo”. Mas Abel é uma prova de que o Senhor vem ao nosso encontro. Isso porque fé é o entendimento de que Deus está perto e não longe.

Enquanto Caim vai pelas suas más obras (I Jo.3:12; Mt.23:35), confiando em seu esforço, Abel reconhece sua precariedade e sua falência espiritual e moral. Quem não crê na necessidade do sangue, acaba derramando de alguém. Abel foi por isso, justificado. E esse foi seu lastro, sua herança: a possibilidade da justificação.

3)    VIDAS DAS QUAIS O MUNDO NÃO É DIGNO SÃO VIDAS QUE SÃO MAIORES DO QUE A MORTE.

Vidas que são maiores do que a morte são vidas do tamanho da VIDA. Viver não é pouca coisa. É algo tão bom que até Jesus agonizou pela vida (Mt.26). Todos os grandes e bons personagens da História da Humanidade tiveram em comum um apego a vida. São vidas que valeram a pena serem vividas. Eram significantes e por isso seu significado ficou impresso na memória da Humanidade. Foram vidas que parece que faltou o “aviso” de que acabou. Elas “insistem em continuar”, através da sua obra, do seu testemunho. Penso aqui agora por exemplo (e buscando uma proximidade maior) em gente como meu falecido pai, Pr.Mauro Israel, Pr.Xavier, entre outros.

Vidas que são maiores do que a morte são vidas que pela fé e por causa da fé, morreram para um modelo ensimesmado de viver (Mt.16:25). São vidas que se perderam e foram achadas. Erasmo de Roterdã (Elogio da Loucura) falava da cruz como símbolo maior desse desapego ao mundo. A cruz é o atestado da indignidade, na perspectiva humana. Já na divina, a cruz de Jesus foi o atestado da Sua dignidade. Ele só foi para Cruz porque era DIGNO. Abel foi um sangue inocente derramado sobre a Terra pelo seu irmão. Jesus foi o JUSTO de Deus que, sendo inocente, foi morto pelos “seus irmãos judeus”[2]. O que não dizer do testemunho apostólico e primitivo sobre Dorcas (At.10:38-42)? Há uma interessante ligação entre aproveitar a vida e ir para o ralo da História e ser aproveitado pela vida e partir para os anais da mesma.

Vidas que são maiores que a morte são vidas que apontam para a existência de uma realidade ulterior. Como explicar racionalmente que exista gente que excedeu seu tempo, sua geração, há não ser reafirmando pela fé que a vida não se resume a materialidade? Vidas maiores que a morte mostram que a existência não pode ser só matéria (circunscrita a ela). E aí chegamos no primado da fé: a dignidade daqueles que esperam, almejam, visualizam o céu de Deus (Heb.11:13-16). Há uma dignidade na ressurreição!

Vidas maiores que a morte são vidas que por causa da fé, ainda VIVEM! Mas agora na eternidade com Jesus Cristo!

O que esperar da vida? Doe-se. Faça valer a pena. E saiba que seu rastro se transforma a cada dia em lastro para minha alma.

IGREJA BATISTA MARAPENDI

Av.Paisagista José Silva de Azevedo Neto 200 – O2 Corporate /// Cultos aos domingos 11.00hs  e 19.30hs – Centro de Convenções do O2


[1] Logicamente que há os espertos… aqueles que estão do lado da pessoa “certa”, na hora exata. Quem seria Sarney se não estivesse ladeando Tancredo? E o que não dizer de Melanchton com Lutero, Dilma, Haddad, Lindenbergh com Lula? Eduardo Paes com Cabral?

[2] Não estou aqui entrando na discussão infrutífera (ao meu ver) de quem matou Cristo, mesmo porque penso que a morte de Jesus se deu por um algoz imaterial – o pecado. Nesse sentido, a assembléia que decidiu foi entre os judeus, a execução foi romana, porém a responsabilidade foi e é de todos os seres humanos em todas as eras.

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dezembro 11, 2012

Moisés: A fé que vence o medo (Heb.11:23-29)

Filed under: Estudos,Teologia — sdusilek @ 3:04 pm

Aquele que não possui qualquer tipo de medo que seja o primeiro a levantar a mão! Medo faz parte da vida. É com o medo que as seguradoras trabalham. Elas afirmam, “vai que…” “é melhor ter”. Qual é o seu medo? Diz a psicanálise que todo ser humano tem pelo menos uma fobia. Eu confesso: a minha chama-se acrofobia. E a sua?

Moisés nasceu num contexto dominado pelo medo. Se você pensa que nascer na miséria africana é um infortúnio, imagina o que foi vir ao mundo com a sentença de morte decretada. Assim como ocorreu com Jesus, Moisés sobreviveu a um infanticídio. Ele foi um exemplo vivo de que com a fé podemos vencer o medo, sair do estado de estagnação, partir para dentro de novos e maiores desafios.

1)A fé vence o medo da violência (v.23): a Palavra diz que Moisés era formoso (asteios), lindo, tinha algo diferente na sua cara. A fé que ele viveu foi a que aprendeu dos seus pais (Anrão e Joquebede). Fé que desafia as decisões de Faraó. E isso mostra o quanto uma família pode fazer por um filho… A fé que vence o medo transforma cemitérios em condutos de vida. Se no Nilo os infantes eram afogados, foi pelo rio que Moisés foi salvo. Ele calmamente flutuou pelas águas da morte. E aqui destaca-se a presença da racionalidade na fé. Um cesto foi feito. Foi por um cesto que Paulo foi salvo. Sempre haverá um cesto!!!

2) A fé vence o medo da desinstalação (v.24): já mudou de emprego, de endereço (cidade)? De igreja? Os hábitos da vida trazem um ar de segurança para nós. Por isso costumamos fazer tudo para não mudar. Moisés estava bem instalado: vivia na melhor corte e no maior palácio do seu tempo. Seu futuro, como filho adotado da filha de Faraó (Bítia/Termutis) era promissor. Mas ele se recusa a permanecer ali, antes optando por ser maltratado (synkakoucheistai). Moisés aqui novamente se assemelha a Jesus: enquanto ele renunciou a glória terrena por causa do povo, Cristo renunciou a glória do céu por causa da humanidade. Isso porquê:

2.1-um coração cheio de fé se torna ardente por justiça. Impérios são construídos sobre a injustiça. O Reino de Deus é sobre a JUSTIÇA. 2.2-o coração cheio de fé é tomado por um sentido de missão. Só diz não ao Egito quem sabe o porquê de estar aqui;  2.3-o coração cheio de fé coloca os valores espirituais acima dos materiais. Fé implica em valores altos, elevados (Is.55), que ocasiona escolhas elevadas rejeitando ora pecado, ora facilidades;

3) A fé vence o medo do desconhecido (v.27) – Moisés foi para o deserto de Midiã. Caminhar para o deserto é para quem diz que Deus tem o controle sobre sua vida. A fé que vence o desconhecido é a que nos leva para o desconhecido. E sabemos que o “desconhecido” é mais forte do que tudo que conhecemos (ira de Faraó-v.27)

4) A fé vence o medo da rejeição/solidão – já foi rejeitado? Solidão é passar pelo deserto sem Deus. E isso Moisés disse que não aceitava (Ex.33). Rejeição é o que ele achava que o esperava na volta para o Egito, 40 anos depois (Ex.4). A fé concede um discernimento tão grande da parceria com Deus, que isso se traduz em presença contínua e aceitação do Alto! Quando vencemos o medo? Quando olhamos somente para uma direção, a do Alto; quando o único olhar que cruza com o nosso é o dEle; quando nada mais rouba a nossa atenção; quando ficamos parados/”hipnotizados” contemplando a beleza do Senhor; aí venceremos o medo. Afinal, quem tem esse Pai, o que pode temer? (Rm.8:31-39)

 

[Pr.Sergio Dusilek]

maio 20, 2012

SAIA DO LUGAR COMUM

Filed under: Teologia — sdusilek @ 12:15 am

Que tipo de pessoa voce e? Um observador externo pode pensar em voce como alguem que vive uma normalidade, um padrao? Ou voce e daqueles que se ligam em novidades? Em outras palavras alem da sua digital, iris do olho e saber que Deus o criou de modo singular, ha algo mais em voce ou na sua acao que faz com que voce seja notado? Nao falo aqui em excentricidade. Falo em ousar sair do lugar comum.

Lugar comum pode ser uma simples acomodacao. E quando nao mudamos uma realidade (ou mesmo de realidade) pelo simples fato de nao querer algum desgaste maior. Nao queremos trabalho, chateacao, tensoes oriundas do “novo”… ficamos acomodados. Deixamos de explorar o mundo, de aproveitar oportunidades de viver novas experiencias. A acomodacao e uma especie de trancafiamento da vida. Um deixar seguir um curso “normal”. Por isso se torna um lugar comum. Interessante que as grandes experiencias da Biblia (como bem destaca David Wong em Alem dos Limites) aconteceram fora da zona de conforto. Parece que a fe tem algo haver com mobilidade, abertura para o novo, certeza da companhia de Deus em meio a imprevisibilidade que os “caminhos inivisiveis da fe” (como bem dizia Rubem Amorese) normalmente nos conduzem.

A ausencia de reflexao tambem pode ser considerada como lugar comum. Fazer o que sempre se fez, ou o que sempre foi feito, sem pensar e no minimo atestado de preguica intelectual. Viver um conservadorismo sem nem saber o que e ser conservador e se condenar ao lugar comum. Pelo menos para adotar os valores dos outros que haja um minimo de reflexao, para que seja seguida por uma escolha. Se vamos viver com a moralidade da maioria, como dizia Nietzsche, que seja por opcao e nao por repeticao. Ministerialmente falando, nao faca uma coisa porque outros a fizeram. Nao seja um pastor, um lider que repete o que viu, a nao ser que seja fruto de deliberada escolha por sua parte. Lugar comum e nao questionar a heranca que recebeu.

Outro componente do lugar comum e a imitacao. Se a falta de reflexao tende a perpetuar a heranca recebida sem ao menos se saber “os porques” disso, os que desprezam a heranca em nome da novidade reproduzem o que recebem. Ha tanta falta de reflexao numa apropriacao acritica conservadora como no mimetismo da novidade. Em ambos o “lugar comum” acaba sendo o porto ou o destino final. So muda a perspectiva dependendo da linha. A febre pelo novo conduz a um lugar comum: o do produto consumido. Nao se trilha caminhos de fe, mas se move pelos corredores de um shopping. Querer ser o que nao se e; querer reproduzir o que nao foi fruto de reflexao conduz ao lugar comum.

Interessante, para os adeptos da novidade, o alerta feito pelo consultor Luis Marins em artigo para uma revista de companhia aerea. Ele dizia que os que buscam inovacao fazem muito bem; porem os que procuram novidade pelo simples fato de ter o novo acabam infidelizando os clientes. Ao inves de ampliar, as coisas decrescem. Se voce nao e fiel com o que oferece, dizia ele, como cobrar fidelidade dos outros? Nao busque algo novo somente pela novidade. O novo pelo novo. Se tiver que inovar, inove. Contudo  faca isso debaixo da direcao divina e nao da importacao simplista e simploria de modelos.

Por mais paradoxal que pareca, nossa sociedade tecnologica que consome coisas novas e impensaveis ate algumas decadas atras, perpetua o lugar comum. Isso porque lugar comum tem haver com a mente e nao com os instrumentos que utilizamos no viver. Sair do lugar comum e mudar a percepcao da vida, o foco das coisas, e ver de um jeito diferente, espiritual, refletido. Sair do lugar comum envolve mais do que reflexao, envolve abstracao: e preciso se ver, se projetar de modo diferente. Novamente lembro: sair do lugar comum envolve atitude interior e nao parafernalia tecnologica exterior. Alias nao seriam as inovacoes predispostas a nos manterem no conforto e  por isso a tender para a acomodacao e o lugar comum?

Nao fique no lugar do comum. Nem no caminho da heranca acolhida de modo acritico, nem tampouco no frisom da novidade. Saia do lugar comum, como um dia um paralitico saiu. Sua atencao, no tanque de betesda (Joao 5), volta-se para Jesus. Ele ousa, sem poder andar, dar  “passos de fe”. Porque saiu do lugar comum, foi salvo e sarado. Grandes experiencias com Jesus estao reservadas aqueles que ousam sair do lugar comum. Seja esse lugar comum uma ideologia, um partido de situacao, uma “igreja da moda”, uma panela de amigos que nao sai do mesmo lugar e nao muda a pauta, etc.

Saia do lugar comum! Voce foi feito para viver acima da mediocridade.

Pr.Sergio Dusilek

sdusilek@gmail.com

abril 9, 2012

POR QUE NÃO TEMOS A FACE DE JESUS?

Filed under: Teologia — sdusilek @ 1:37 am

POR QUE NÃO TEMOS A FACE DE JESUS?

É no mínimo interessante esse renascimento da vontade de se ver a face de Jesus. Que esse rosto vem sendo perseguido em cânticos nas igrejas isso é notório. Que alguns, em períodos de êxtase na adoração jurem ter visto a cara de Jesus (mesmo estando de olhos fechados e tendo esse pretenso Jesus uma cara de Gary Oldman com lentes azuis) isso é normal. Contudo é curioso que se busque um aperfeiçoamento científico para se produzir e atestar a cara do Mestre.

Provocativo também é o fato de que o mesmo Deus que se preocupou em velar e manter Sua Palavra por séculos a fio, não teve o menor interesse em perpetuar a imagem de Jesus. Penso, e aqui compartilho, pelo menos três motivos para isso:

a)      A face de Jesus Cristo é maior do que um rosto humano. A expressão divina, a visualização de um Deus glorificado (vide Ap.1), não cabe em categorias humanas. Por ser maior do que a cara de um homem não caberia em qualquer representação humana, ainda que Schelling atribuísse ao artista essa capacidade ímpar e sublime de representar aquilo que está além de nós. A face de Jesus de Nazaré é a face de Deus. É a face da Graça, a expressão do Amor divino! É a assinatura da aceitação! A Páscoa representa então esse convite, essa aceitação do Senhor para que nos assentemos à sua mesa.

 

b)      A face de Jesus não está impressa porque ela se faz expressa na vida dos seus seguidores. A face de Cristo está diluída em muitas faces: na sua, na minha, na da Igreja Batista Marapendi (da qual faço parte). Quando vivemos a vida de Cristo em nós (Gl.2:20) as pessoas passam a enxergá-Lo através de nós. Sua imagem passa então a ser expressa por nós. Por que ter uma face única, se Cristo pode ter diversas faces (a do seu povo)? É justamente na Ceia, na hora do partir o pão, de experimentar a comunhão é que vemos nitidamente espelhado no outro, no nosso irmão, a face de Jesus.

 

c)       A face de Jesus se manifesta nas ações dirigidas aos desvalidos. Quer ver Jesus? Ame e direcione sua vida (ou pelo menos parte dela) para os pobres. Não creio, como Leonardo Boff defendeu, que nos pobres visualizamos Jesus. Mas penso que quando nos voltamos para promover a justiça e a misericórdia temos a alegria de vê-Lo. Perceba que a identificação que Cristo faz com o desfavorecido se dá no e pelo processo de sua rendição (Mt.25).

 

Quero terminar sugerindo a você que ao invés de fazer força num movimento intimista e “místico” que você busque discernir a face de Jesus por meios mais simples e racionais. Porque estes permanecem, embasam e sustentam a nossa fé.

Pr.Sergio Dusilek – sergio@ibmarapendi.com.br

fevereiro 15, 2012

CONVITE A SANTIDADE

Filed under: Estudos,Teologia — sdusilek @ 12:25 pm

É isso aí! Tô fazendo esse convite a você no carnaval! Pode parecer anacrônico, mas não é. Justamente na época do ano em que a sujeira carnal é mais evidenciada, propagada, aceita e desejada (pasmem!) vamos falar em santidade. Isso, garanto a você, não é uma insanidade. Insano é acreditar na veiculação da mídia de que pode-se “brincar” e até se “esbaldar” no carnaval que a vida continua depois como se nada tivesse acontecido. Essa postulação de que o carnaval seria um tempo de amnésia moral sem seqüelas tem cara do Diabo. E como tal afronta o Senhor.

Deus é Santo e Ele nos convida a vivermos em santidade. Ser santo é bom. Traz paz ao coração e alegria para a vida. Santidade jamais foi, nem será, o projeto da “chatice divina”. Ela é um dos ideais mais caros para a humanidade. Isso porque não dá para se relacionar com Jesus sem que Ele nos marque, nos mude, nos transforme. Quem ama Jesus acaba procurando andar como Ele andou (I Jo.2:6). Quem ama Jesus tem prazer na caminhada que se faz no Caminho e não nos descaminhos. Quem ama Jesus olha para esse mundo com olhar de compaixão, de serviço/ministração e não com olhar de consumo, de volúpia.

As palavras bíblicas kadosh (hebraico) e hagios (grego) são as que traduzimos como “santo”. Elas querem dizer essencialmente separado, totalmente consagrado, destinado para uma função. O Deus santo quando nos salvou nos consagrou. Recebemos em nossa conversão a Unção, isto é, o batismo com o Espírito Santo. Fomos encharcados com toda santidade do alto! E ali fomos totalmente consagrados para adoração a Deus e separados para Seu serviço, para o exercício dos dons que Ele nos deu. Contudo, o grande problema é como construir essa santidade. Queria então compartilhar algumas idéias (de uma lista que não se esgota aqui) que podem ajudá-lo(a) a viver esse projeto de Deus para nós.

1) Santidade não é um convite a reclusão (Jo.17:15, I Pe.2:11-12, Mt.5:13-14)

Ao longo do cristianismo alguns pensaram (e ainda pensam) que para viver em santidade é preciso experimentar uma desconexão com o mundo. Desliga a tv, cancela a internet, quebra o computador, descarta os cd´s de músicas “mundanas”,… tudo cheio da melhor intenção e maior devoção. Só que logo após tomadas essas atitudes descobre-se que o mal, que o desejo da carne (Rm.7) continua latejando dentro da alma. Nem o viver dentro da igreja gera essa santidade. No máximo produz “igrejade”.

Essa proposta de uma auto-exclusão foi especialmente encarnada pelos monges na idade média. Muitos viveram piedosamente. Mas eles seriam piedosos em qualquer lugar, não só no monastério, pois não é o ambiente que faz o monge e sim o monge quem faz o monastério. Contudo outros (lembra do romance “O Nome da Rosa” de Humberto Eco) sequer chegaram perto de qualquer ideal de santidade. Não é a reclusão que nos torna santos, mas a inclusão do Senhor em TODA nossa vida. É reconhece-Lo em todos os nossos caminhos. E reconhece-Lo envolve adquirir consciência plena que sou de Jesus, que pertenço ao Senhor tanto dentro quanto fora do ambiente igreja; tanto na multidão quanto na solidão. A proposta de Deus não vem pela desconexão e sim pela conexão; não vem pelo isolamento, mas pelo compartilhamento de uma vida diária com Deus. Isso nos leva a segunda idéia:

2) Santidade não se constrói com negação, mas com afirmação (I Cor.8:3; Tg.4:4; I Jo 2:15-17; I Pe.1:13-16, 3:11)

Para muitos santo é aquele que não faz, que não se envolve, que vive isolado. Santo seria aquele que tem medo de respirar o mesmo ar dos outros. Santo seria também um predestinado a redoma. Muitos vivem a vida cristã baseando-se nas negativas que tem de exercitar e nos convites que precisam recusar. Ocorre que viver pela negação não lhe conduz necessariamente à afirmação. Não é dizendo o que é o errado que se afirma o que é correto. Não é correndo do Diabo que se chega em Jesus. Quando pensamos em santidade como afirmação estamos falando do SIM que devemos dar a Deus. Não só o sim que nos conduziu a salvação, mas aqueles que também nos conduzem a santificação. Quanta coisa Deus precisa mexer em nós! Quantas mudanças o Senhor quer fazer! Quanto lixo para tirar… sim porque por vezes por conta da conversão embalamos o lixo, porém esquecemos de tirá-lo de casa (da nossa vida) para colocá-lo na lixeira… E tudo isso depende do nosso sim diário, constante, rendido, entregue ao Senhor.

Quando dizemos sim a Deus, conseguimos dizer não aos convites do mundo. Mas agora dizemos não por medo de sermos pegos, ou mesmo porque os outros dizem (aquela negativa que nem sabemos explicar o porquê dela), mas sim por convicção. Um crente que constrói sua espiritualidade pelo caminho da negação acaba se tornando muito diferente de Jesus, fica esquisito, insuportável e com nuanças de fariseu. Guarde bem isso: espiritualidade genuinamente cristã é edificada pelo sim, pelo espaço que você dá a Deus na sua vida.

 3) Santidade não gera luz própria (Cant.6:10; II Cor.3:18; Fil.2:15; Mt.6:5b)

Todo aquele que vive em santidade tem uma marca indelével: resplandece Jesus. A luz que aparece não é a da pessoa, mas a do Senhor Jesus. Isso porque a santidade enquanto reafirma os sim´s para Deus, nos leva a dar as negativas não só para convites que são do Diabo, mas sobretudo para o nosso ego. Isto é: quanto mais de Deus em nós, menos de nós mesmos (Jo.3:30). A boca de um santo fala das obras de Jesus, da vida de Jesus e não daquilo que ele tem feito em nome dEle. Nada tão estranho ao evangelho quanto a existência de gente que se diz SERVO (isto é – escravo (doulos-grego)) mas que é tão cheio de si cujo assunto é ele mesmo. Em outras palavras: se você começa a pensar em alguém como herói, como “o cara” (já que ele se promove para tal), comece a desconfiar de sua fé e da dele. Isso é tão sério que algo que possua uma fonte de luz própria acaba atrapalhando a reprodução de uma fonte maior!

Ser santo é resplandecer a Cristo, é brilhar Sua luz e não a nossa. No dizer de Salomão em Cânticos, somos vocacionados para sermos “luas” de Deus e não “sóis” do Senhor. E não é essa Luz do Senhor que o mundo almeja ver? Ele (mundo) anda em trevas. As pessoas tateam no escuro. Não possuem referenciais. Não foram estabelecidos limites para seu próprio bem. Não sabem a beleza e bonança que é viver com e para Jesus. Precisam de luz.

 4) Santidade não se mantém com ausência de sujeira, mas sim constante limpeza (Sl.51:1-3,7; I Cor.6:11; Tg.4:7-10; I Pe.1:22; I Jo.1:9)

Não só um brilho próprio pode atrapalhar o resplandecer da Luz de Deus em nós. A sujeira também pode ofuscar esse brilho. E em nome desse ideal de limpeza alguns cometem um equívoco. Acham que vida santa é uma vida de preservação pessoal, de corte de relacionamentos com pessoas somente pelo fato delas não serem crentes também. Gosto de uma frase do Pr.Ivênio dos Santos: “não é mais limpo quem nunca se suja, mas quem sempre se lava.” Se é impossível que não nos sujemos, que o pó desse mundo não se apegue em nós, é possível e factível que tomemos providência para que ele não resida conosco. Se não posso evitar a sujeira, posso não ficar encardido por ela. Daí a importância da confissão. Por isso precisamos constantemente estar aos pés de Jesus, em contrita devoção, para que o “sangue dEle nos purifique de cada/todo pecado”. Quem acha que não tem do que se arrepender, do que pedir perdão, não é santo; é convencido. Porque toda vez que olhamos (Sl.34:5) para Ele, percebemos quão indignos somos e vemos com nitidez os pecados que cometemos (inclusive os “microscópicos”, cometidos em pensamento).

Portanto, use esse período para descanso. Mas use também para reafirmar seu desejo de ser santo assim como Ele é Santo!

Pr.Sergio Dusilek

 sdusilek@gmail.com

fevereiro 13, 2012

UMA AMBIÇÃO QUE POUCOS TEM – Lc.12:13-21

Filed under: Estudos,Teologia — sdusilek @ 10:23 am

Todo ser humano normal ambiciona alguma coisa. Nesse exato momento você pode estar fazendo planos para trocar o carro ou quem sabe adquirir a primeira moto. Talvez esteja pensando em comprar uma roupa mais cara, ou quem sabe até mesmo a igreja esteja pensando numa ampliação, compra de nova aparelhagem de som, ou mesmo de uma bancada diferente. Fato é que todos nós ambicionamos, desejamos coisas que ainda não alcançamos.

A Bíblia não condena a ambição em si. Mas condena toda e qualquer forma de vida que seja reduzida ao serviço às coisas. E nada exerce tanto atrativo nesse quesito como o amor ao dinheiro. E é nesse ponto que a avareza torna uma pessoa escrava do bem adquirido ou desejado. Acaba servindo, adorando, a Mamom (Mt.6:24).

Para evidenciar que o Reino não é dos avarentos, mas sim dos que partilham dos seus bens com liberalidade, Jesus após ser instigado por um homem, conta uma parábola. Interessante notar que ao provocar uma reação em Jesus, aquele homem:

a)      Mostrava claro sinal de avareza, pois nenhum valor deu ao seu pai que havia morrido, mas sim aos bens que deixara. Ao que tudo indica essa morte não devia ter ocorrido há muito tempo. Mesmo assim aquele rapaz já estava interessado na partilha. Coisa triste, não?

b)      Acaba encomendando um juízo a Jesus. Ora, se ele via Jesus como um árbitro, devia confiar em sua deliberação e não encomendar o juízo. Ele chega dizendo o que Jesus deveria fazer (v.13). Mesmo sendo comum aos mestres decidirem, ajuizarem (aliás eles eram também reconhecidos pela sua jurisprudência), não cabe a ninguém dar uma causa a Deus e pedir a parcialidade ao seu favor.

c)      O Mestre passa então a recusar essa função. A espada que Cristo veio trazer (Mt.10:34) não é a do dinheiro, mas do Evangelho. Famílias seriam partidas por causa das Boas Novas do Reino. Não por causa de heranças. Sempre que houver espaço o Evangelho será promotor de reconciliação e não de divisão. Na verdade Jesus queria substituir a palavra meristes (grego – dividir) por mesistes (grego – reconciliar). De fato aquele homem estava ali reduzindo Cristo a um mero árbitro.

1)    Aquele homem tipifica o avarento porque só pensava em si (v.13-14)

Um dos grande problemas do avarento é que sua postura é como a da sangue-suga (Pv.30:15). Sua mão é fechada o que o impede de repartir, de dar, mas também de receber. Uma mão fechada acaba não retendo aquilo que Deus quer derramar sobre ela, porque para reter é preciso estar aberta para agarrar o que vem do céu. Tal conduta revela um elevado grau de individualismo. Isso porque pessoas avarentas se relacionam com coisas e não com gente. Acabam terminando sozinhas.

Na parábola o homem rico estava ficando cada vez mais rico – seu campo produziu com abundância (v.16). Sua preocupação então era armazenar aquilo que conseguira amealhar ao longo de sua vida profissional (v.18). Jesus propositadamente evidencia um contra-senso: ora, por que um homem já abastado, rico, quer ter mais do que possui? A resposta é uma só: por conta da sua avareza, do seu amor ao dinheiro.

Aquele homem passara toda a vida se dedicando ao ter. E quando chegou ao final descobriu que não ERA! Alguém que acredite que para ser alguém precisa ter as coisas e ostentá-las um dia descobrirá, como aquele fazendeiro da parábola, que não é nada. Toda sua riqueza não pode livrá-lo da morte (v.19-20). Se definir por aquilo que faz ou pelo que possui, por coisas externas a essência do ser, é admitir uma tremenda falta de consistência interna.

Conta-se que no enterro de um dos homens mais ricos que esse mundo conheceu o armador grego Aristóteles Onassis, vários de seus amigos comentavam sobre a herança que ele havia deixado. Num dado momento, um deles teria interrompido e dito: “é verdade que ele deixou muitos bens… mas o que ele levou consigo?”

A avareza coisifica o ser humano. Ser avarento é ser pequeno, solitário, embora o celeiro possa ser enorme. Amar o dinheiro faz com que a pessoa pense somente em si. E isso faz com que deixe de ser benção na vida dos outros. Será que você é assim?

2)    Aquele homem tipifica o avarento porque queria só ajuntar para si (v.17-18)

O Mestre vai denunciar as motivações e intenções daquele reclamante (v.13) mediante a parábola.

Qual era a marca do pensamento do fazendeiro da parábola? Ele pensava em ajuntar bens somente para si. As expressões encontradas no texto são o que “VOU” fazer? “MINHA” colheita; “MEUS” celeiros; “MINHA” safra; “MEUS” bens. No entanto, ao passo que ele ia ajuntando bens ia perdendo a sua alma (Mt.16:26). A parábola não fala de lar, de esposas, de filhos, de amigos, de sinagoga/Templo, de vida com Deus. Não havia nem uma pessoa para herdar aquilo que ele ajuntara (v.20). Ele simplesmente havia perdido sua alma.

A marca de um cidadão do Reino não é a avareza, o isolacionismo, mas a comunhão. A primeira evidência da conversão de Zaqueu foi o desprendimento de toda a avareza, pois ele doou metade dos seus bens aos pobres (Lc.19). O primeiro sinal de que o Espírito estava operando na Igreja “Primitiva” era a comunhão que eles tinham a ponto dos discípulos de Jesus, vivendo num ambiente judaico e judaizante, optarem por terem tudo em comum. E muitos como Barnabé venderam suas propriedades para depositá-las aos pés dos apóstolos afim de que os recursos fossem distribuídos (At.2:44; 4:32-36). Se houve um comunismo (entendido aqui por ter as coisas em comum) na História esse aconteceu no nascedouro da Igreja.

Tudo isso para apontar o elevado grau de serviço da igreja. Ser cristão, cidadão do Reino não é entrar em disputas de herança, mas sim buscar servir o outro.

No seu dia-a-dia, na sua agenda pessoal, existe tempo para socorrer alguém ou só para aumentar os seus “celeiros”? Gosto de uma máxima que diz: se você não vive para servir, não serve para viver! Pense nisso!

CONCLUSAO

Ambição para ter dinheiro, bens, sucesso, todos têm. Alguns até em grau de distorção como é o caso dos avarentos, sobre os quais Jesus falou nessa parábola.

Contudo há uma ambição que poucos têm. E ela está ligada a expressão final que Cristo usa no verso 21. Poucos querem ser ricos para com Deus. Já ambicionou isso alguma vez? Conhece alguém assim?

Talvez até haja uma indagação no seu coração: como ser rico para com Deus? Quero terminar este estudo dando a você uma lista não esgotável:

a)      Ser rico para com Deus e tê-lo como a riqueza maior de sua vida. É ter Deus como seu tesouro maior (v.34). Isso implica em sempre estar disposto a servir e a ter uma agenda flexível para receber a direção de Deus. Esse é seu caso?

b)      Ser rico para com Deus é ser rico de Deus! Isso implica em viver uma vida pela Graça e transbordando Graça para todos os que perto de você estão. É viver tendo a misericórdia, o amor, triunfando sobre o juízo (Tg.2:12b);

c)       Ser rico para com Deus é ser rico aos olhos de Deus. O sucesso para Deus e para seu Reino não está nos números que você possui (sua riqueza pessoal, seus celeiros). O sucesso para Deus está em sua obediência e comprometimento (fidelidade) a Ele. Noé foi um fracasso como evangelista, mas foi um sucesso como crente (Gen.6; Ez.14:14). Filipe estava “arrebentando” em Samaria até que o Espírito o levou para o deserto a fim de ganhar o mordomo de Candace para Jesus (At.8). Riqueza aos olhos humanos é quantidade. Riqueza aos olhos de Deus é fidelidade ao Seu querer. Qual é a sua riqueza hoje?

d)      Ser rico para com Deus é ser rico do galardão de Deus (I Cor.15:58; Heb.6:10; 11:6). É experimentar a recompensa que vem do Alto ou mesmo a que “lá em cima” está reservada para nós (II Tm.1:12). É se envolver na obra do Senhor com alegria e amor. É permitir que Ele o use para fazer grandes coisas.

Que tal a partir de agora almejar ser rico para com Deus?

Textos: I Tm.6:6-11; Ap.3:14-22; Ec.5:10-6:2; Mt.17:24-27; II Cor.9:6-15; Fl.4; Lc.12:13-21

[ESTUDO PUBLICADO NA REVISTA PALAVRA E VIDA DA CONVENÇÃO BATISTA FLUMINENSE NO QUARTO TRIMESTRE DE 2010]

Pr.Sergio Dusilek

sdusilek@gmail.com

fevereiro 5, 2012

UM INVESTIMENTO SEM RESULTADO – LUCAS 13:6-9

Filed under: Estudos,Teologia — sdusilek @ 2:32 pm

Uma das experiências mais frustrantes que um ser humano pode ter é a falta de retorno. Pais que investem anos em filhos que por sua vez não dão nenhum retorno a eles, seja afetivo, seja material; igrejas que investem em seminaristas que simplesmente não vingam; pastores que investem em igrejas que não saem do lugar; amigos que “carregam as fichas” numa amizade e que na hora de maior aperto são abandonados por eles. Ou mesmo quem sabe alguém pegou seus recursos e fez uma aplicação esperando retorno significativo, mas acabou descobrindo que perdera o que foi tão difícil juntar… Sem dúvida alguma, não ter resultado em um investimento é muito frustrante.

Frustração é o sentimento do coração de Deus quando contempla uma figueira sem fruto. Interessante é que a figueira na Palestina dá fruto 10 meses por ano. Em qualquer tempo um homem encontraria figo para comer, até mesmo na figueira mais desavisada. Quanto mais aquela da parábola! Escolhida, plantada em um lugar especial (sim, pois a vinha era plantada em solo fértil – v.6), desejada pelo dono da vinha, cuidada com todo carinho… como podia não dar fruto? Será que sua vida está como aquela figueira? Boa terra, bom cuidado, excelente Dono, mas sem fruto?

1)    Entendendo o contexto;
Para que você entenda melhor esta parábola explicito os significados que foram atribuídos a figueira ao longo do Velho Testamento.
Um primeiro significado era da figueira como símbolo da paz e da prosperidade sobre Israel. Em tempos de paz, cada israelita descansaria debaixo de sua figueira (Mq.4:4; Zc.3:10; Os.9:10).
Outro significado seria a figueira como a liderança de Israel. Gente em quem Deus investiu tempo, Palavra, mas que se recusava a andar segundo Seu coração.
Por fim há a idéia do povo de Deus (Jer.24). Nesse sentido figueira e vinha eram usadas como expressões correlatas. Ocorre que no Novo Testamento, por ser o fruto da vide o símbolo da nova aliança entre Deus e o povo, a vinha passa a tipificar de modo preponderante esse papel (Jo.15). Interessante que o “evangelista” do Velho Testamento, o profeta Isaías, faz mais uso da vinha do que da figueira para tipificar o povo de Deus (Is.5). A vinha seria então o Israel de Deus, a “assembléia universal dos Santos” (Heb.12:22-23). Todos os salvos no passado, presente e futuro, ao longo de toda a história da humanidade.

Nesse sentido Jesus então contrasta com sua vinda a esterilidade de Israel. Os teólogos destacam com razão que Israel era para ser uma nação sacerdotal, um lugar em que (até mesmo pela sua localização geográfica) os povos acorreriam para buscar a presença de Deus. Uma terra onde a Presença de Deus seria anunciada, vista e vivida. Só que Israel falhou nesse propósito sacerdotal. E essa ausência de frutos era agora mais evidenciada com a vinda de Cristo, meio pelo qual não precisamos mais de sacerdotes, nem de nações sacerdotais para termos comunhão com Deus (I Pe.2:8-9; I Tm.2:5). Por isso o uso por Jesus de uma figueira no meio da vinha… de algo que foi tido como povo de Deus mas que por se recusar a crer no sacrifício de Jesus, deixara de ser.

Para evidenciar essa percepção, Lucas registra logo após essa parábola o encontro de Jesus com uma mulher israelita, freqüentadora de uma sinagoga (tanto que encontrou o Mestre por lá), mas que havia 18 anos era “cavalo do Diabo”. Uma figueira no meio da vinha que agora se tornara uma vinha no meio das “figueiras”. Gente no meio do Israel de Deus, do povo de Deus, mas que não é povo do Senhor. Será que tem gente assim no nosso meio? Porque se tem, não é ficando no nosso meio que as coisas se resolverão. É indo para diante de Jesus (13:12a), nesse encontro com o Senhor da vinha é que se torna ligado a videira verdadeira (Jo.15) e deixa-se de ter uma vida infrutífera.

2)    Há um tempo para arrependimento
Que fruto você tem dado? Que resultado em termos de investimento você tem apresentado diante de Deus? Suas mãos estão cheias ou vazias?
A mulher encurvada nada tinha a apresentar. Assim também acontecia com os judeus que questionaram Jesus sobre a morte dos galileus (13:1) e aos quais o Mestre falou da queda da torre de Siloé (v.4). Sem entrar no mérito desses dois fatos históricos, o que importa para gente é a lógica do infrutífero: “reconheço que não dou fruto, mas há árvores infrutíferas piores do que a minha”. Ou ainda: sou pecador, mas tem pecador pior do que eu, como se ser melhor do que alguém num quesito péssimo (pecado) torna-se alguém aprovado (bom). Afinal: ser menos pior torna alguém melhor? Foi essa lógica da auto-complacência que Cristo desmascarou.

Essa era a lógica de Israel diante de Deus. Fomos escolhidos como povo. Sabemos que não estamos vivendo a plenitude do que Deus quer, mas certamente não somos os maiores pecadores do mundo… você consegue ouvir esse eco de raciocínio? O que Jesus quis trazer é que há um tempo para arrependimento e que esse momento havia chegado. Em Cristo somos salvos. Olhando para Cristo, todos precisam de arrependimento, sejam judeus ou não.

Nesse sentido quero dizer que não creio num plano especial de Deus para salvar o povo judeu no futuro. Algo como dar um “by pass” na mediação de Cristo e salvá-los por causa de uma “herança abraônica”. Nesse sentido vejo muita incompreensão sobre a mensagem bíblica. Senão vejamos:

a)    A Palavra de Deus fala de modo abrangente e pródigo sobre arrependimento. Talvez dois dos textos mais duros e claros sejam: Hebreus 2:2-3 e II Pe.2:4-11.
Se nem anjos foram poupados, porque homens o seriam? (veja também Rm.11:21);
b)    A Palavra assevera a primazia de Cristo na Criação (Cl.1) e na eternidade (Ap.1-5). Fala também da cruz de Cristo como local de encontro entre o homem e Deus. O autor de Hebreus revela um Cristo que é maior que todos os componentes da fé judaica. A supremacia de Cristo fica evidente sobre cada aspecto religioso do judaísmo.
A Palavra apresenta também Jesus como a mensagem central da Bíblia. O Caminho para o Pai. Sendo assim, falar num plano outro para algum povo é tornar Israel melhor que os outros povos e até mesmo melhor que Cristo. Biblicamente falando, é inadmissível qualquer depreciação da obra de Cristo. Israel existiu por causa de Cristo e não Cristo por causa de Israel.
c)    Há uma incompreensão sobre a fala de Paulo em Romanos 9-11. Israel fora uma nação escolhida, mas agora perdera a condição eleita porque o pacto salvífico não era via etnia, mas via promessa (fé – Rm.9:6-8). Nem todos de Israel (pátria) eram israelitas (povo de Deus). A expressão “todo Israel será salvo” (Rm.11:26) fala portanto de todo o povo de Deus ao longo da História. A eleição agora se dá em Cristo (Ef.1:4-5; Rm.8:29; I Pe.2:8-10;
d)    A esperança para Israel se chama Cristo. O caminho continua sendo o arrependimento (At.2:37-39). Para aqueles que creram e crerão, estes integram acima de tudo o Israel de Deus!

3)    Deus procura fruto
Ao que tudo indica aquela figueira não queria dar frutos para Deus. Provavelmente a fala do dono se deu no 9º ano de vida dela. Isso porque 3 anos eram necessários para a árvore crescer; 3 para dar um fruto considerado proibido (Lv.19:23); no 4º ano (7º de vida da figueira) era o fruto puro para ser dado ao Senhor (Lv.19:24), coisa que devia ser renovada a cada 4 anos (Dt.14:28,29). O dono da vinha procurava fruto havia 3 anos! E aquela figueira se recusava dar fruto ao Senhor. Será que você é bem sucedido em tudo, frutifica em todas as áreas, menos dentro da vinha, do Reino de Deus?

O dono da vinha então volta procurando fruto. E não encontra. Nos evangelhos encontramos 2 outras experiências assim: a de Joao 15 e a vez em que Jesus procura figos (Mt.21:18-22). Quando o Senhor da vinha não encontra fruto ele pode:

a)    Arrancar (13:7), cortar. A palavra no grego katargei significa tornar inútil, ineficaz, gastar totalmente. Particularmente foi isso que aconteceu com Israel como nação, como vimos anteriormente, cumprindo assim a profecia de João Batista (Lc.3:7-9). Postura semelhante no resultado, mas diferente na forma, foi a que aconteceu com a figueira que não tinha fruto para Jesus e que por ordem do Mestre, secou-se (Mt.21:19);
b)    Há ainda a posição de limpar (Joao 15:2). A palavra no grego para cortar airô pode significar levantar o ramo, limpá-lo. Por vezes ramos caem e são pisados se tornando infrutíferos. Para esses o dono da vinha os levanta, limpa de toda sujeira para que possam então produzir fruto. Que imagem mais linda de como o Senhor trata conosco!
O Dono da Vinha procura fruto. Você tem frutificado? Se não, deixe o Senhor limpá-lo…

CONCLUSAO
Por fim essa parábola mostra um dilema (v.7-8). Mas não é um desacordo na Trindade. Gosto da idéia de Keneth Bailey de que o debate que ocorre ali é entre os atributos de Deus: misericórdia e juízo. E como a Palavra revela, a misericórdia triunfa sobre o juízo (Tg.2:13). Se Deus procura fruto, se ainda há tempo para arrependimento é porque da parte dEle há tempo para perdão. A palavra no verso 8 para “deixa-a” é a palavra usada no NT para perdão. Deus é compassivo, tardio para irar-se! Aleluia!
Que na visitação do Dono da Vinha sobre sua vida Ele o encontre carregado do Fruto (Gl.5:22-23). E que caso você ainda não esteja frutificando, lembre-se que se houve severidade com Israel e com os anjos, também haverá contigo. Deixe o Senhor levantar e limpar você! Porque pela Sua misericórdia, você ainda pode alcançar perdão!

janeiro 31, 2012

Quando a Gratidão vira instrumento de dominação

Filed under: Estudos,Teologia — sdusilek @ 1:21 am

Estava esses dias no facebook e vi uma pessoa de bom coração postando seu incômodo com aquilo que chamava de “ingratidão”. Na percepção dela, uma falta de reciprocidade, algo como que um “favor em troca” não realizado, era uma expressão de falta de gratidão. Até aí nada de tão sério se isso não a estivesse incomodando.

Esse fato me fez pensar em como o conceito de gratidão anda distorcido. E como o favor (outrora desinteressado) em direção ao outro tem se perdido. Quero convidar você a pensar um pouco sobre isso.

Primeiro vale a pena lembrar que gratidão é um sentimento dirigido a alguém por conta de um ato, de um feito. Há uma distorção enorme nesse campo. Tem gente que pensa que a gratidão é a pessoa, ser grato pela pessoa… bom, isso pode até acontecer desde que você tenha conhecimento e relacionamento profundo e duradouro com ela. Contudo a gratidão é antes pelo ato/feito que alguém teve. Você dirige, localiza, direciona esse sentimento para alguém, porém isso não torna essa gratidão algo que existencial, ontológico. Não! É um simples reconhecimento de uma ação. Não é porque alguém cedeu o lugar no ônibus para você com o pé engessado sentar que você vai se agradecido, venerará essa pessoa que nunca viu nem conversou até o fim de sua vida. Tampouco deve deixar de registrar seu apreço pela sua atitude.

Se alguém espera reciprocidade em uma ação então aquilo que fez não é digno de gratidão. Gratidão é a paga do que é impagável. Se alguém estende a mão para você com outros interesses por trás isso é utilitarismo, não uma ação espontânea, desinteressada que precede a genuína gratidão. Se alguém agiu esperando paga/reciprocidade, e se é possível pagar, então não tem que haver reconhecimento, mas sim desejo de liberdade. Sim, porque você nesse caso foi escravizado sem perceber…

A Bíblia manda sermos gratos. Faz parte do cristianismo ter um coração grato. Cristo tinha um coração eucarístico (eucaristhon-grego = ações de graças): em todo tempo você o vê nos evangelhos dando graças. Deve haver em nosso coração uma eterna gratidão pela obra de Jesus, e também por quem Ele é. Semelhantemente é salutar que se encontre gratidão no coração por aquilo que foi feito e por pessoas que marcam (são importantes) para a nossa vida. Em particular, sou grato a Deus por todos que me ajudaram até hoje. Mas gratidão não envolve subserviência e negação. Em outras palavras: não é porque se é grato que será cego, mudo e surdo.

No momento em que a gratidão (ou o motivo dela) alcança uma mesa, uma conversa, para se fazer uma cobrança experimentamos uma forma diabólica de dominação. Por isso quero repetir: gratidão não envolve reciprocidade. Não envolve retorno. Porque quem faz não espera nada em troca, ou pelo menos não deveria…

O Bom Samaritano (Lc.10) esperou algo em troca? Aquela estória termina com alguma recompensa àquele ato tão generoso? Não! Isso porque a recompensa do ato generoso é o prazer de exercer generosidade. Por isso quem age genuinamente em prol do outro não espera e tampouco deseja reciprocidade. Aquele que tem o coração bondoso se torna satisfeito por exalar o que é bom. A vítima do roubo naquela narrativa pode ter experimentado uma profunda gratidão por tão precioso e responsável cuidado. Mas ele não foi cobrado disso. A “gratidão” não virou motivo de dominação.

Que Deus nos livre de toda e qualquer forma de escravidão! Até mesmo as quem vem debaixo de algo tão doce como a gratidão.

Pr.Sergio Dusilek

sdusilek@gmail.com

janeiro 29, 2012

ACERTO DE CONTAS – LUCAS 12:35-48

Filed under: Estudos,Teologia — sdusilek @ 11:59 pm

Quando o Mundo vai acabar? Ninguém que aqui anda sabe. O que sabemos é que quando uma data é estipulada, nesse dia o mundo não acabará. Aliás uma das marcas do fim dos tempos é a presença de falsos (e não de verdadeiros) profetas, os quais tentam prever a hora e a localização do fim (Mt.24:23-28). Pode acabar um dia antes, um dia depois; um ano antes ou um ano depois; um século, um milênio antes ou depois. Mas nesse dia apregoado com certeza não acabará, porque esse dia não é conhecido por homens, mas por Deus (Mc.13:32; At.1:6-7). Esse papo de que o calendário Maia acaba em 21 de dezembro de 2012 nada tem haver com o fim dos tempos. Talvez um espanhol tenha matado o responsável pela a agenda, ou mesmo ele tenha se enfadado de fazê-la.

Interessante é que para fazer a ponte da parábola do servo vigilante, Jesus afirma que uma pessoa preocupada demais com a vida que vai levar aqui nesse mundo dificilmente vai pensar na eternidade (v.33-34). E quando não nos lembramos da eternidade, dificilmente acatamos a recomendação do profeta Amós (Am.4:12). O Mestre queria reforçar que a vida é muito mais do que ter as coisas (v.23). E somente com uma visão na eternidade é que apreendemos esse conceito. Ele não queria nenhum afixionado no tema, porque isso não produz resultado. Jesus queria somente que nós estivéssemos prontos para esse acerto de contas. E para tanto ele conjuga 3 parábolas com o mesmo “fio da meada”, com o mesmo fio condutor: a parábola do servo vigilante (v.36-38); a parábola do pai de família e do ladrão (v.39-41); e ainda a parábola do mordomo infiel (v.42-48). Sendo assim, vamos aos principais ensinamentos dessa parábola.

1) O acerto de contas se dará numa hora não marcada. Quem sabe a hora de sua morte, hora essa em que se dará um acerto de contas com o Senhor? Quem sabe a hora da “morte do mundo”? Absolutamente ninguém. Interessante que Cristo reforça esse ensino na parábola entre os versos 36-37. Em que dia o senhor voltará do casamento? E em qual hora? A ausência da resposta traz a responsabilidade da prontidão de cada servo daquele senhor. A questão é que muitos por não saberem a hora e muitos por acharem que essa hora está demorando demais para acontecer acabam relaxando. Sabem como o Senhor quer encontrar as coisas, conhecem a vontade dEle, porém postergam o cumprimento desse querer. Ao invés da prontidão vivem a procrastinação, achando que no último instante dá para resolver todas as coisas, limpar todos os ambientes daquela casa. Para os relaxados, os descansados, o acerto de contas vai resultar em vergonha.

 Outro grupo que vai se envergonhar diante do Senhor é o dos embaraçados. A parábola fala em encontrar os servos cingidos, isto é, tendo o cinto preso na cintura, junto aos lombos. Esse detalhe da vestimenta oriental é de suma importância para o que Jesus quer dizer aqui. Toda túnica presa com cinto permitia a pessoa ter movimentos rápidos. Já uma túnica sem a amarra da cintura… era um convite ao tropeço, ao se enrolar com a própria roupa. E isso invariavelmente resultava em queda. Embaraçado então era a pessoa que estava sem cinto. O que Jesus quer dizer? Que a mobilidade e a leveza fazem parte do Reino de Deus. Que os tropeços (Mt.18) não devem ser encontrados no Reino. E toda vez que alguém se envolve demais com coisas dessa vida acaba tropeçando, se enrolando. Cria laços e cipós que o prende, quando na verdade o que Deus quer é que você crie laços no céu, onde as amarras nos libertam.

Cingido também era o que sempre estava pronto. Tal servo era extremamente vigilante. O Mestre quer dizer aqui que não é bom que para alguém ficar em estado de prontidão, receba uma ordem para tal. Seja dessa maneira você alguém que está pronto sem precisar ouvir qualquer clarinada. Aos que estão prontos tanto faz se Cristo voltará amanhã ou daqui há 15 anos, ou mesmo 3 milênios. Eles anseiam pela vinda gloriosa dEle (Ap.22:17,20) e já estão perfilados para quando isso acontecer seja Servos cingidos também reagem melhor as vicissitudes da vida. Quando sofre um baque ele enverga, contudo dificilmente quebra ou cai. Você está cingido? Pronto para a volta do Senhor?

2) Nesse acerto de contas importará mais o que você faz do que o que você deixou de fazer (v.39-40) Um dos grandes erros dos servos do Senhor é concentrar a postura na volta de Cristo, a um niilismo comportamental. Um bando de gente sem fazer nada de errado. Como se a contemplação do céu (At.1:10-11) fosse uma postura aprovada por Deus… pelo menos, na cabeça de muitos, não está se fazendo nada errado. É como se por um erro feito na pior hora do mundo (a volta de Jesus), uma pessoa pudesse perder a salvação. Nós não somos daqueles que crêem que a salvação é obra de Deus? E em assim sendo, que não podemos perdê-la? Como então um pecado poderia anular a Graça e a Cruz de Cristo? Há muitas pessoas que não vivem uma fé em Deus, mas um medo do retorno do Cristo. Para essas, a volta não será as bodas do Cordeiro, mas o dia do choro. Acabam tendo o comportamento certo (não a intenção – vide I Cor.4:1-5) ao viverem uma vida neurotizante, mais com medo do inferno do que com alegria de servir a Deus. Ao invés de procurarem agradar ao Senhor (I Tess.4:1) vivem tentando não desagradá-lo. O resultado no comportamento pode parecer o mesmo, mas a intenção e a forma como é alcançado é completamente diferente. Por isso, que tal pensar em ser achado fazendo algo certo? Mais pronto não é aquele que vive com medo de errar. Mais pronto é aquele que vive tentando acertar. Deus nos convida a agirmos e a deixarmos que Ele nos use até o fim. Interessante é que para reforçar esse contraste, Jesus usa a figura do ladrão. Ele não destaca o erro do ladrão, mas o fator surpresa que ele tem. E isso funciona como uma advertência para a prontidão em relação a 2ª vinda de Cristo (I Tess.5:2-4; II Pe.3:10; Ap.3:3; 16:15; Mt.24:38,39). Prontidão essa que precisa ser traduzida como serviço ao Mestre.

3) No acerto de contas, o peso está sobre quem muito é dado (V.48) Quanto Deus tem investido em você? O que você tem feito com aquilo que Ele tem lhe dado? Os servos costumeiramente erram quando, após conhecerem a vontade e o caráter do Senhor, não cumprem com sua parte (v.47). Alguns chegam a se apropriar daquilo que lhe foi confiado. E isso gera um sentimento de posse e de independência do Senhor. Sabe como isso se manifesta? Em lideranças tirânicas dentro de igrejas, por exemplo. Para você que maltrata os servos do Senhor e que acha que os conservos são seus, há um duro juízo esperando você (v.46). A palavra no grego para castigar é a palavra que indica a segunda pior forma de morte naquele tempo: ser cortado ao meio. Talvez como uma forma de mostrar na morte, no castigo, o tipo de vida dispare e paradoxal que esse servo tinha: ser do seu Senhor, mas se conduzindo segundo os parâmetros de outro senhorio. Sim, porque a tirania e o maltrato pertencem ao Diabo. Por vezes se manifesta também em gente que é dotada de enorme capacidade para o serviço, mas que se recusa a dedicar os talentos e dons que recebeu do Espírito na obra do Senhor. A você foi confiado o sustento dos conservos (v.42). E isso não pode ser adiado. O que você tem feito com tudo o que o Senhor tem lhe dado? Recursos, estudo… você tem retribuído a Deus? Muitos esquecem que o Senhor confiou uma tarefa de destaque que é a de ser mordomo (v.42). Mordomo no grego é oikonomos, aquele que faz as leis de uma casa ou que vela por essas leis. Alguém como um administrador ou mesmo a figura de uma governanta (hoje em desuso). Lembra de José na casa de Potifar ou mesmo no tempo que passou na prisão? Essa é a imagem que Deus quer passar sobre mordomia. Deus sempre está com os mordomos que se portam com lealdade e zelo. Como esteve com José no Egito, Ele estará contigo. Isso aumenta ainda mais o peso. Deus não só é o Senhor que nos confere capacidade (Fil.2:13), mas é aquele que nos acompanha o tempo todo no desempenhar de nossa mordomia. Tá sentindo um incômodo, um peso sobre os ombros? Seja então bem-vindo ao âmago da parábola do servo vigilante.

CONCLUSAO

O mundo não vai acabar em 21/12/2012. Mas pode acabar em 2010, 2350, 5180… Fato é que a prontidão e vigilância que são as tônicas do ensino de Jesus nessa parábola não são para o futuro. São para o presente. Prontidão que se propõe a ficar preparada daqui há um tempo não é prontidão. Vigilância que não leva a cingir os lombos tampouco é vigilância. Por isso ouse se envolver na obra do Senhor. Seja um bom mordomo, um bom despenseiro de tudo quanto Ele lhe deu. Que haja no seu coração uma oração constante dizendo “Deus, torna-me cada vez mais pronto para a volta do meu Senhor Jesus!”. E que no dia do acerto de contas, você então ouça do Senhor: bem-aventurado servo bom e fiel (v.43).

 

Pr.Sergio Dusilek

[Estudo publicado na revista Palavra e Vida, da Convenção Batista Fluminense, quarto trimestre de 2010]

janeiro 27, 2012

SOBRE OS DESABAMENTOS NO CENTRO DO RIO

Filed under: Teologia — sdusilek @ 7:11 am

Há algumas tragédias que chocam por si só. Outras chocam pela magnitude da mesma (como o que aconteceu na região serrana do Rio em Janeiro de 2011). Outras pelo potencial de atingimento. Creio que esses desabamentos do Rio trazem essa última nuância compondo a perplexidade dos cariocas. Quem já não passou andando ao lado desses prédios? Quem não almoçou ali perto um dia? O que aconteceu com alguns poderia ter ocorrido com muitos outros mais; e o que aconteceu com o outro podia ter ocorrido comigo.

Pior do que uma tragédia em si é passar por ela incólume, sem uma reflexão, sem uma lição. Por isso mesmo quero convidá-lo(a) a pensar algumas coisas comigo.

Em primeiro lugar procuro perceber onde Deus está atuando nesses momentos em que ficamos atônitos. Saber que o prédio ruiu quase no fim do expediente e com número reduzido de pessoas dentro é motivo de gratidão a Deus. Foi horrível o que aconteceu, mas lembre-se podia ser muito pior. E quando ouvimos e percebemos testemunhos de gente que lá trabalhava dizendo que na manhã do dia 25/01 pedaços de reboco começavam a soltar e a aparecer pelo lado de dentro, perto do elevador, isso só me faz achar que Deus sustentou aquele prédio por um dia inteiro. Ver a solidariedade de tantos nesse momento de dor, as redes sociais reproduzindo pedidos de oração, gente ajudando e os bombeiros se doando e arriscando, é prova de que há um Deus sobre a Terra. E o que não dizer daquele ajundante de pedreiro que foi miraculosamente salvo? Cabe a nós orarmos pelos enlutados pela perda de familiares e pelos enlutados que perderam a direção, o rumo da vida. Sim, porque muitos estão vivos mas sem saber como será daqui para frente sua vida, afinal parte dela, seus negócios, seu trabalho, morreram na noite de quarta-feira. 

[que tal antes de continuar a leitura fazer uma oração pelos enlutados em vida ou na morte?]

Em segundo lugar não dá para não reparar no descaso público. Falo constantemente aqui em casa: o Rio é maravilhoso, contudo é uma esculhambação só. Nada aqui funciona como deveria funcionar. Só quem morou em outra cidade mais organizada, ainda que com seus problemas também, compreende o que estou dizendo. Temos um prefeito promoter (só quer saber das grandes festas de 2014 e 2016). Temos um governador omisso e que anda sumido. Temos uma máquina estatal que em diversos setores finge que trabalha. Por isso nessas horas de tragédias ouvimos tantos “se”: “se o governo fiscalizasse…”; “se houvesse uma vistoria nos prédios…”; se…

 Em terceiro lugar fica a lição sobre uma possível causa. Quando se trata de mexer em estrutura, somente com profissional gabaritado. Tem gente que quer mexer em questões fulcrais da vida do outro sem o menor preparo. Nunca entregue a sua “estrutura” a quem não tem capacidade técnica ou divina para mexer. Você pode nunca mais se reconhecer depois disso, assim como os prédios que desabaram estão irreconhecíveis.

Por fim quero lhe dizer para ter cuidado com quem você cola. Gente que anda colado com quem possui “falha estrutural” na alma acabará se arrebentando também. Qual foi o problema do prédio de quatro e do de dez andares que eram menores? Estar colado num grande com falha estrutural. Quando por fim a estrutura se desfaz, derruba a si  mesmo (o grande) como também os menores que estão colados consigo. E dessa tragédia, não há escapatória. Ela vai continuar a se repetir e se cumprir. Guarde bem isso.

Orando para que o Rio deixe de ser um canteiro de obras e torne-se uma usina de seriedade,

Pr.Sergio Dusilek

sdusilek@gmail.com

 

 

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