Novos Caminhos, Velhos Trilhos

fevereiro 5, 2012

UM INVESTIMENTO SEM RESULTADO – LUCAS 13:6-9

Filed under: Estudos,Teologia — sdusilek @ 2:32 pm

Uma das experiências mais frustrantes que um ser humano pode ter é a falta de retorno. Pais que investem anos em filhos que por sua vez não dão nenhum retorno a eles, seja afetivo, seja material; igrejas que investem em seminaristas que simplesmente não vingam; pastores que investem em igrejas que não saem do lugar; amigos que “carregam as fichas” numa amizade e que na hora de maior aperto são abandonados por eles. Ou mesmo quem sabe alguém pegou seus recursos e fez uma aplicação esperando retorno significativo, mas acabou descobrindo que perdera o que foi tão difícil juntar… Sem dúvida alguma, não ter resultado em um investimento é muito frustrante.

Frustração é o sentimento do coração de Deus quando contempla uma figueira sem fruto. Interessante é que a figueira na Palestina dá fruto 10 meses por ano. Em qualquer tempo um homem encontraria figo para comer, até mesmo na figueira mais desavisada. Quanto mais aquela da parábola! Escolhida, plantada em um lugar especial (sim, pois a vinha era plantada em solo fértil – v.6), desejada pelo dono da vinha, cuidada com todo carinho… como podia não dar fruto? Será que sua vida está como aquela figueira? Boa terra, bom cuidado, excelente Dono, mas sem fruto?

1)    Entendendo o contexto;
Para que você entenda melhor esta parábola explicito os significados que foram atribuídos a figueira ao longo do Velho Testamento.
Um primeiro significado era da figueira como símbolo da paz e da prosperidade sobre Israel. Em tempos de paz, cada israelita descansaria debaixo de sua figueira (Mq.4:4; Zc.3:10; Os.9:10).
Outro significado seria a figueira como a liderança de Israel. Gente em quem Deus investiu tempo, Palavra, mas que se recusava a andar segundo Seu coração.
Por fim há a idéia do povo de Deus (Jer.24). Nesse sentido figueira e vinha eram usadas como expressões correlatas. Ocorre que no Novo Testamento, por ser o fruto da vide o símbolo da nova aliança entre Deus e o povo, a vinha passa a tipificar de modo preponderante esse papel (Jo.15). Interessante que o “evangelista” do Velho Testamento, o profeta Isaías, faz mais uso da vinha do que da figueira para tipificar o povo de Deus (Is.5). A vinha seria então o Israel de Deus, a “assembléia universal dos Santos” (Heb.12:22-23). Todos os salvos no passado, presente e futuro, ao longo de toda a história da humanidade.

Nesse sentido Jesus então contrasta com sua vinda a esterilidade de Israel. Os teólogos destacam com razão que Israel era para ser uma nação sacerdotal, um lugar em que (até mesmo pela sua localização geográfica) os povos acorreriam para buscar a presença de Deus. Uma terra onde a Presença de Deus seria anunciada, vista e vivida. Só que Israel falhou nesse propósito sacerdotal. E essa ausência de frutos era agora mais evidenciada com a vinda de Cristo, meio pelo qual não precisamos mais de sacerdotes, nem de nações sacerdotais para termos comunhão com Deus (I Pe.2:8-9; I Tm.2:5). Por isso o uso por Jesus de uma figueira no meio da vinha… de algo que foi tido como povo de Deus mas que por se recusar a crer no sacrifício de Jesus, deixara de ser.

Para evidenciar essa percepção, Lucas registra logo após essa parábola o encontro de Jesus com uma mulher israelita, freqüentadora de uma sinagoga (tanto que encontrou o Mestre por lá), mas que havia 18 anos era “cavalo do Diabo”. Uma figueira no meio da vinha que agora se tornara uma vinha no meio das “figueiras”. Gente no meio do Israel de Deus, do povo de Deus, mas que não é povo do Senhor. Será que tem gente assim no nosso meio? Porque se tem, não é ficando no nosso meio que as coisas se resolverão. É indo para diante de Jesus (13:12a), nesse encontro com o Senhor da vinha é que se torna ligado a videira verdadeira (Jo.15) e deixa-se de ter uma vida infrutífera.

2)    Há um tempo para arrependimento
Que fruto você tem dado? Que resultado em termos de investimento você tem apresentado diante de Deus? Suas mãos estão cheias ou vazias?
A mulher encurvada nada tinha a apresentar. Assim também acontecia com os judeus que questionaram Jesus sobre a morte dos galileus (13:1) e aos quais o Mestre falou da queda da torre de Siloé (v.4). Sem entrar no mérito desses dois fatos históricos, o que importa para gente é a lógica do infrutífero: “reconheço que não dou fruto, mas há árvores infrutíferas piores do que a minha”. Ou ainda: sou pecador, mas tem pecador pior do que eu, como se ser melhor do que alguém num quesito péssimo (pecado) torna-se alguém aprovado (bom). Afinal: ser menos pior torna alguém melhor? Foi essa lógica da auto-complacência que Cristo desmascarou.

Essa era a lógica de Israel diante de Deus. Fomos escolhidos como povo. Sabemos que não estamos vivendo a plenitude do que Deus quer, mas certamente não somos os maiores pecadores do mundo… você consegue ouvir esse eco de raciocínio? O que Jesus quis trazer é que há um tempo para arrependimento e que esse momento havia chegado. Em Cristo somos salvos. Olhando para Cristo, todos precisam de arrependimento, sejam judeus ou não.

Nesse sentido quero dizer que não creio num plano especial de Deus para salvar o povo judeu no futuro. Algo como dar um “by pass” na mediação de Cristo e salvá-los por causa de uma “herança abraônica”. Nesse sentido vejo muita incompreensão sobre a mensagem bíblica. Senão vejamos:

a)    A Palavra de Deus fala de modo abrangente e pródigo sobre arrependimento. Talvez dois dos textos mais duros e claros sejam: Hebreus 2:2-3 e II Pe.2:4-11.
Se nem anjos foram poupados, porque homens o seriam? (veja também Rm.11:21);
b)    A Palavra assevera a primazia de Cristo na Criação (Cl.1) e na eternidade (Ap.1-5). Fala também da cruz de Cristo como local de encontro entre o homem e Deus. O autor de Hebreus revela um Cristo que é maior que todos os componentes da fé judaica. A supremacia de Cristo fica evidente sobre cada aspecto religioso do judaísmo.
A Palavra apresenta também Jesus como a mensagem central da Bíblia. O Caminho para o Pai. Sendo assim, falar num plano outro para algum povo é tornar Israel melhor que os outros povos e até mesmo melhor que Cristo. Biblicamente falando, é inadmissível qualquer depreciação da obra de Cristo. Israel existiu por causa de Cristo e não Cristo por causa de Israel.
c)    Há uma incompreensão sobre a fala de Paulo em Romanos 9-11. Israel fora uma nação escolhida, mas agora perdera a condição eleita porque o pacto salvífico não era via etnia, mas via promessa (fé – Rm.9:6-8). Nem todos de Israel (pátria) eram israelitas (povo de Deus). A expressão “todo Israel será salvo” (Rm.11:26) fala portanto de todo o povo de Deus ao longo da História. A eleição agora se dá em Cristo (Ef.1:4-5; Rm.8:29; I Pe.2:8-10;
d)    A esperança para Israel se chama Cristo. O caminho continua sendo o arrependimento (At.2:37-39). Para aqueles que creram e crerão, estes integram acima de tudo o Israel de Deus!

3)    Deus procura fruto
Ao que tudo indica aquela figueira não queria dar frutos para Deus. Provavelmente a fala do dono se deu no 9º ano de vida dela. Isso porque 3 anos eram necessários para a árvore crescer; 3 para dar um fruto considerado proibido (Lv.19:23); no 4º ano (7º de vida da figueira) era o fruto puro para ser dado ao Senhor (Lv.19:24), coisa que devia ser renovada a cada 4 anos (Dt.14:28,29). O dono da vinha procurava fruto havia 3 anos! E aquela figueira se recusava dar fruto ao Senhor. Será que você é bem sucedido em tudo, frutifica em todas as áreas, menos dentro da vinha, do Reino de Deus?

O dono da vinha então volta procurando fruto. E não encontra. Nos evangelhos encontramos 2 outras experiências assim: a de Joao 15 e a vez em que Jesus procura figos (Mt.21:18-22). Quando o Senhor da vinha não encontra fruto ele pode:

a)    Arrancar (13:7), cortar. A palavra no grego katargei significa tornar inútil, ineficaz, gastar totalmente. Particularmente foi isso que aconteceu com Israel como nação, como vimos anteriormente, cumprindo assim a profecia de João Batista (Lc.3:7-9). Postura semelhante no resultado, mas diferente na forma, foi a que aconteceu com a figueira que não tinha fruto para Jesus e que por ordem do Mestre, secou-se (Mt.21:19);
b)    Há ainda a posição de limpar (Joao 15:2). A palavra no grego para cortar airô pode significar levantar o ramo, limpá-lo. Por vezes ramos caem e são pisados se tornando infrutíferos. Para esses o dono da vinha os levanta, limpa de toda sujeira para que possam então produzir fruto. Que imagem mais linda de como o Senhor trata conosco!
O Dono da Vinha procura fruto. Você tem frutificado? Se não, deixe o Senhor limpá-lo…

CONCLUSAO
Por fim essa parábola mostra um dilema (v.7-8). Mas não é um desacordo na Trindade. Gosto da idéia de Keneth Bailey de que o debate que ocorre ali é entre os atributos de Deus: misericórdia e juízo. E como a Palavra revela, a misericórdia triunfa sobre o juízo (Tg.2:13). Se Deus procura fruto, se ainda há tempo para arrependimento é porque da parte dEle há tempo para perdão. A palavra no verso 8 para “deixa-a” é a palavra usada no NT para perdão. Deus é compassivo, tardio para irar-se! Aleluia!
Que na visitação do Dono da Vinha sobre sua vida Ele o encontre carregado do Fruto (Gl.5:22-23). E que caso você ainda não esteja frutificando, lembre-se que se houve severidade com Israel e com os anjos, também haverá contigo. Deixe o Senhor levantar e limpar você! Porque pela Sua misericórdia, você ainda pode alcançar perdão!

4 Comentários »

  1. Sempre achei que o mais importante são os frutos que apresentamos a Deus. Receber a Salvação pela graça, conhecer as Sagradas Escrituras, participar de uma igreja, ser batizado, receber dons, mas se o amor de Deus não se manifestar através de nós no mundo, de que vale tudo que recebemos se não somos produtivos. Deus investe em nós para ver e saborear nossos frutos e somos salvos para salvar.

    Comentário por José Carlos Bastos — novembro 13, 2012 @ 12:34 pm | Responder

  2. Amei a exposição! Certamente a paciência de Deus é pura misericórdia, que muitas vezes não temos e nem pedimos por outros. Que bom se todos pedíssemos mais misericórdia e não juízo precipitadamente. É sempre bom lembrar que ” os misericordiosos alcançarão misericórdia (Mt5:7) e isso é bem melhor que sacrifício (Mt 9.13)!
    Rosane Paiva

    Comentário por Rosane Paiva da Silva — novembro 1, 2013 @ 4:11 pm | Responder

  3. existe algunha dinamica feita a partir desta leitura

    Comentário por julio cesar da silva neto — junho 30, 2015 @ 8:49 pm | Responder

    • prezado Julio, não noite. Deve ter sim junto a convenção batista fluminense. Isso porque esse e outros estudos foram publicados na revista daquela organização e eles dispuseram um suplemento didático. Sugiro ver lá com eles. Deus o abencoe.

      Comentário por sdusilek — julho 1, 2015 @ 1:02 am | Responder


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