Novos Caminhos, Velhos Trilhos

novembro 28, 2008

Será que estamos preparados para o bem? (Mt.8:28-34)

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Será que estamos preparados para o bem?

(Mt.8:28-34)

Pr.Sergio Dusilek

Em pesquisa recente divulgada pelo IBOPE, constatou-se que a empregabilidade deixou de ser a maior preocupação do brasileiro. Agora é a questão da violência. Cá entre nós, isso até que faz sentido: para que trabalhar e ser remunerado se posso não viver para gastar meu dinheiro ou mesmo pagar minhas contas?

Nos jornais, sejam eles televisivos ou impressos, violência. Nas ruas, violência. Na política, mais violência só que travestida com o manto da corrupção. Nas religiões, reduto cultural da moralidade, percebe-se um flerte com a violência (rabino que rouba gravata, casal de líderes de igreja que confessam crime em outro país…).

O que preocupa qualquer observador bem intencionado é o arraigamento do mal. A extensão que ele tem tomado na sociedade e onde ele tem jogado seus tentáculos na cultura. Será que mesmo orando e clamando a Deus por paz (Jer.29:7) e por uma intervenção divina no nosso “tecido social”, o mal poderá ser erradicado? Será que o mal já não está tão arraigado no povo que mesmo havendo uma manifestação da Glória, Majestade, Autoridade e Poder de Deus as pessoas, por estarem tão acostumadas com esse mal, não o prefeririam? Em outras palavras: será que estamos preparados para o bem?

Essa pergunta pode doer em você e parecer retórica. Mas ela não o é. E o povo de gadara (Mt.8:28-34) preferiu antes o mal (a que estavam acostumados) do que a Jesus com toda a sua majestade e poder. Na Bíblia há outros casos de gente que escolhera o mal (Gen.19-Sodoma; Mc.10 – o jovem rico, etc.)

1) Quando o mal impera?

O que acontecera com os gadarenos para que naquele “choque do bem” eles preferirem o mal? Creio que o mal imperava em Gadara.E o maior sinal disso não era a presença dos endemominhados, mas sim a ausência dos valores do Reino de Deus. Como já dizia Santo Agostinho “o mal existe como ausência do bem”. Na verdade, sempre que o bem se ausentar o mal se instalará.

É significativo que o verso 28 comece dizendo que Gadara ficava do outro lado. Isso porque de um lado os valores do Reino Deus, a Constituição do Reino (Mt.5-7) fora explicitada e do outro lado havia uma sociedade (gadarena) que estava distante daquilo que é preciosidade para o Reino dos Céus. Em outras palavras: Gadara era uma cidade tão dominada pelo mal que nela não havia presença dos valores de Deus. Ela estava do outro lado, longe da influência do Reino. E toda vez que deixamos de lado os valores do Reino, abrimos brecha para o mal e para o Maligno.

Ser crente é prezar pela verdade (IICor.13:8). Ser crente é viver em amor (I Cor.13). Ser crente é manifestar o perdão (Mt.6;18). Depender de Deus é manifestar e ansiar pela justiça (Mt.5). Quando nós transigimos com nossos valores ou mesmo quando nós omitimos a vivência e a experiência destes valores nós condenamos o povo a viver “gadarenamente”, isto é, à margem dos valores do Reino de Deus.

2) Quais são as marcas do domínio do mal?

É nesse encontro de Jesus com os gadarenos que notamos a extensão que o mal tomou na vida e na consciência social daquela cidade. Isso pode ser percebido pela existência de:

a) caminhos obstruídos – vias proibitivas. Havia caminhos, ruas, avenidas em Gadara pelos quais não se podia passar (v.28b). Eram vias proibitivas, devido a violência que imperava. Aonde os valores do Reino resplandecem há tanta paz que as vias são desimpedidas. A violência, o mal obstruem as “artérias” de uma localidade. Talvez você se lembre agora de alguma parte de sua cidade ou de sua região que está desse jeito. Isso se deve não só a um comércio ilegal (tráfico, por exemplo), mas sobretudo a ação do Diabo;

b) xenofobia (v.28) – os turistas (Jesus e os discípulos) foram recebidos por endemoninhados. A Palavra de Deus é pródiga no retrato que Deus faz do cuidado que deve-se ter com os estrangeiros. Gadara estava tão distante dos valores do Reino de Deus que seu cartão de visitas era dado por gente possessa. Cidades que não sabem acolher o estrangeiro, antes o recebem com violência (assalto, ameaças e outros atos mais) são carentes do Reino e pródigas do mal;

c) cheiro de morte no ar – nada agride tanto o coração de Deus como a morte violenta. Lembrar, para ficarmos num exemplo, que no Rio de Janeiro, nos quatro primeiros meses do ano já foram mais de duas mil mortes por conta da violência é algo de extrema dor para o Senhor. Há cheiro de morte no ar, assim como em Gadara havia cheiro de morte. Aqueles homens viviam nos sepulcros e por conta disso fediam a morte o dia inteiro. Onde há violência e onde há homens violentos há morte;

d) outro sinal do domínio do mal era que o povo estava acostumado à imundície (v.31). Não só por criarem porcos (que é um bicho imundo por natureza), mas sobretudo pelo significado e simbologia espiritual que esse apego econômico representava. Mexer com porcos denotava um povo sem valores morais e espirituais. Um povo que topava qualquer negócio e que curtia essa vida má. Os gadarenos eram assim marcados pelo seu amor às trevas (Jo 3:16-21);

e) por fim a última marca do mal era o apego a fofoca e não ao anúncio/proclamação. Ao invés dos pastores irem compartilhar e divulgar o que tinha acontecido, exaltando e glorificando a Deus pelo que Ele fizera, eles saíram “fofocando” e simplesmente relatando os últimos fatos. Ao invés de falarem do milagre e da majestade de Jesus, falaram dos porcos que caíram na ribanceira! Ao invés de falarem da libertação de Jesus, falaram de como aqueles ex-endemoninhados estavam. Aliás essa cultura de valoração do “ex” é terrível. Revela o que o ser humano que se diz salvo tem de pior: gosto pelo sofrimento alheio; crédito a tudo que se ouve (em nome do sobrenatural se perde o bom-senso); esquecimento da Palavra (há gente cuja fé é “sustentada” por testemunhos!!); crença de que ali está agora um imbatível e super-homem. É o gostar de falar de porcos e da porquice.

Como perdemos tempo falando de coisas que não acrescentam…

Gadara não queria um Jesus que pudesse mudar sua vida econômica. Eles estavam dizendo com este ato que estava de bom tamanho ganhar dinheiro de modo sujo e vil. E o Mestre queria mudar isso tudo! Definitivamente os gadarenos não estavam preparados para o bem.

3) O que fazer?

Diante desse quadro de tanta malignidade (talvez você tenha visto sua cidade retratada até aqui)., o que nos resta fazer? Qual é o modelo e a inspiração que Jesus nos dá?

Gosto de Jesus não só por ser meu remidor, e por me amar. Amo o Senhor também pela inspiração que a vida dEle foi para mim. Jesus mesmo sabendo que aquele lugar era avesso aos valores do Reino, Ele vai até lá. E com isso o Mestre nos ensina pelo menos quatro coisas:

a) que o mal precisa ser encarado de frente – nós não devemos correr do Diabo. Ele precisa ser enfrentado e desmascarado (Tg.4:7-8). O disfarce de anjo de luz que ele usa tem de ser tirado (II Cor.11:14-15). A Bíblia ensina-nos (isso sim) a correr do pecado (Gen.39). Jesus encarou aqueles demônios e os expulsou. Afinal, lugar de demônio não é na vida das pessoas, mas no chiqueiro.

b) que em todo lugar deve ser pregado o evangelho, ainda que não haja disposição para conversão. Pode ser que a cidade, que a comunidade não nos receba (Lc.10:8-12). Pode ser até mesmo que nos rejeite (Mt.8:34). Mesmo que você ache que o mal predomina em um lugar, você precisa fazer raiar ali a luz de Cristo (Mt.5:14-16) para que haja oportunidade de superabundar a Graça (Rm.5:20-21). Nossa missão é IRMOS;

c) que os valores do Reino de Deus não podem somente serem vividos entre aqueles que crêem no Rei – JESUS, mas sobretudo entre aqueles que ainda não crêem nEle. Jesus optou, após aquele grande ensino do sermão do monte, por ir e viver os valores do Reino no meio de gente completamente desprovida de qualquer senso moral ou mesmo de consciência. Vida cristã não se faz com acomodação mas a fé cristã é vivida na incomodação;

d) que não há tempo premido ou remido quando se trata de livrar as pessoas do poder do Diabo. Não importa se o Diabo ache que ainda não é o tempo. Importa é que para Jesus todo o tempo é precioso e importante para ajudar as pessoas a saírem da influência do mal.

Conclusão

A narrativa de Mateus traz um final surpreendente. Mesmo com todo o bem que Jesus fez em tão pouco tempo, Gadara pediu que Ele fosse embora. Jesus foi rejeitado por um povo que preferiu o Diabo. O texto diz que todo o povo da cidade foi até ele e pediu para que Ele se retirasse.

Se isso aconteceu com Gadara, será que não poderia acontecer com a nossa cidade, com nosso estado e até mesmo com o nosso país? Será que realmente estamos dispostos a fazer o bem? E será que estamos de fato preparados para o bem?

novembro 25, 2008

CONFRONTADO PELA PROPRIA IMPOTÊNCIA

Filed under: 1 — sdusilek @ 3:17 pm

CONFRONTADO PELA PROPRIA IMPOTÊNCIA

Voce já se sentiu impotente alguma vez na vida? Já aconteceu algo com você que fez com que voce encarasse a dura e nua verdade de que você é limitado? Lembra daquele fatídico dia em que voce descobriu que o céu não era o seu limite?

Lembro-me, particularmente falando, da vez em que fomos rendidos e nosso carro levado. Suamos, à época, para pagarmos o carro que eu queria. Parecia que nada podia nos conter até que… bem, ele foi levado por dois bandidos numa moto. Quanta frustração! Quanto sentimento de impotência! Quanta revelação de minha limitação e de minha incapacidade! Parece que a máxima de um livro de administração realmente se aplica: “Todo mundo é incompetente, inclusive você!”.

Das páginas sagradas da Bíblia quero retirar a lição de vida de um homem que fora confrontado pela sua incapacidade. E nunca somos tão incapazes quanto nas horas em que perdemos aquilo que mais amamos… A perda daquilo que valorizamos realça nossa impotência. O nome desse homem era Jairo, líder de uma sinagoga. Ele estava perdendo sua única filha de 12 anos (quem sabe seu sentimento de impotência não advenha da perda de alguém da família), e sua história está narrada em Lucas 8:40-42, 49-56.

A primeira coisa que aprendemos nessa extraordinária história é que por mais capazes que sejamos, continuaremos sendo finitos e limitados. Jairo era alguém respeitado pela comunidade (talvez de Tiberíades). Era um cara com uma moral exemplar e com uma inserção social ímpar (muitos foram a sua casa – “todo o povo…”-v.52). Possuía um conhecimento religioso singular e por vezes orara com famílias que possuíam pessoas enfermas. Mas nada disso adiantou para restaurar a saúde de sua filha gravemente enferma (v.42 – “estava à morte”). Preste bem atenção em uma coisa: seu networking pode salvá-lo de inúmeros problemas; seu conhecimento religioso pode ancorá-lo em muitas tempestades, sua moral pode preservá-lo de muitas dores; contudo, você mesmo se achando de aço, imbatível, continuará sendo pó, fraco, limitado, incapaz (em algum nível) e impotente para agir em determinada circunstância.

Sabe que de bonito Jairo fez? Ele ofertou sua impotência a Jesus. Quando ele se prostra (v.41) ele se reconhece pequeno, falho, limitado, mas também professa a Jesus como Senhor, como Deus, como Infinito, como plenamente capaz e com absoluto Poder! Talvez Deus tenha lhe levado a essa condição de impotência, para que você reconheça não só quem voce é, mas sobretudo quem é JESUS!

A segunda linda lição desse texto é que importa saber quem está conosco na hora da tragédia, da perda, da dor. Naquele momento em que nos sentimos frustrados pela nossa incapacidade, no qual parece que as coisas não têm como piorar, mas acabam piorando (veio a noticia que a menina havia morrido – v.49), o que importa é saber quem está do nosso lado. Ao lado de Jó estava uma mulher louca, despreparada (Jó 2:9). Ao lado de Jairo estava Jesus! E o Senhor dá uma palavra… “não tenha medo, tão somente creia” (v.50).

Sabe quando vamos ter Jesus do nosso lado na hora da tragédia? Quando aprendermos a andar com ele. Foi isso que Jairo fez. Eles estavam a caminho (v.42b) da casa de Jairo. Os dois andando juntos. Preste bem atenção: Jesus tem prazer em nos acompanhar em nossas travessias, ainda que elas sejam embebidas pela dor. E aqui faz-se necessária uma indagação: quem está do seu lado? Com quem voce anda? Porque no dia em que voce for confrontado com a sua impotência, saber que Jesus está contigo fará toda a diferença.

A última lição a ser destacada desse texto é que Deus usa o símbolo de nossa fraqueza para ministrar e patentear seu poder. Para Deus nada é impossível, difícil. E isso fica mais patente aos nossos olhos na hora em que reconhecemos nossa total inabilidade para resolver ou reverter uma situação. A cena que Jairo e Jesus viram era deprimente. Gente chorando. Alguns inconsoláveis. Talvez para outros houvesse uma revolta com o “SAMU” do tempo pela demora no atendimento e conseqüente morte da menina. De qualquer forma, a dor enchia o entorno daquela casa.

Mas Jesus estava ali para curar aquela menina. E Ele ministra consolo para aquele povo (v.52) que acabou se mostrando descrente, porque riu do poder de Deus. Por isso o povo não pôde ver o milagre (v.51 – quem não crê não pode ver). E o quarto, aquele lugar onde estava depositado toda a impotência, incapacidade e frustração, símbolo da fraqueza de Jairo, foi o ambiente no qual Deus patenteou o seu poder, ressuscitando aquela menina.

Fato é que poucos é que entram no quarto do poder, mas muitos ficam na sala, na varanda e no quintal da incredulidade. Onde voce se encontra? Em qual lugar voce quer ser achado(a)?

Portanto, toda vez que voce for confrontado pela sua própria impotência, não se exaspere. Se renda a Jesus, que é Senhor; ande com Ele, mesmo e principalmente quando as coisas piorarem; e creia para que voce entre no quarto do poder, afim de que voce ouça a voz de Deus, dê a sua mão a Ele e contemple a infinita CAPACIDADE e POTENCIA divina.

Pr.Sergio Dusilek

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novembro 19, 2008

Quando a vida nos encurva

Filed under: 1 — sdusilek @ 3:30 pm

Quando a vida nos encurva

(Lucas 13:10-17)

Nem sempre a vida é fácil. Na verdade a maior parte das vezes ela é muito difícil. E sabe quando percebemos isso? Quando nossos ombros começam a pesar. Pesa sobre nós as responsabilidades que assumimos, as obrigações que temos, as auto-expectativas que criamos, entre outras. O que fazer quando a vida nos encurva?

Certa vez Jesus encontrou uma mulher encurvada pela vida. Ela era uma pessoa religiosa (estava na sinagoga em pleno Sábado) e, conquanto buscasse a Deus, estava opressa pelo Diabo fazia 18 anos. A Palavra não especificou se a opressão era puramente resultante de um trabalho espiritual ou se ela aconteceu pela janela da opressão religiosa, traduzida pelo legalismo. Aliás, TUDO O QUE NOS PRENDE NOS ENCURVA! Fato é que aquela mulher fora encurvada na vida.

O que acontece com quem foi encurvado pela vida?

1) Uma pessoa encurvada pela vida tem uma visão imediatista. Um encurvado perde a visão do horizonte. Não consegue olhar para frente. A pessoa encurvada só consegue ver o chão e não o céu. E quem não tem visão do céu acaba ficando sem esperança. Porque a esperança é derramada (vem de cima para baixo-Romanos 5:5); isto é, ela vem de Deus para nós. Alguém encurvado pela vida perde a visão horizonal da vida (capacidade de ver além do horizonte);

2) Uma pessoa encurvada não distingue a presença de Jesus. O Rei estava na sinagoga, há poucos metros daquela mulher. Mas ela não conseguia vê-lo. As pressões da vida por vezes tiram a nossa percepção espiritual. Passamos a notar outras coisas e achamos que JESUS não está perto de nós… Mas Ele está logo ali;

3) Uma pessoa encurvada é aquela que deixa de receber as coisas de Deus (que vem do céu), porque acostumada está a pegar as coisas que estão no chão. E sabe o que está no chão? As sobras dos outros e aquilo que foi pisado pelo Diabo. A vida daquela mulher encurvada era de dar dó. Sempre mendigando atenção. Sempre recebendo as migalhas de carinho, de amor. 18 longos anos vividos na mediocridade;

A boa noticia é que mesmo quando a vida nos encurva, Jesus nos endireita! Ele nos vê quando não o enxergamos, nem o percebemos. Para sermos libertos das pressões e opressões que encontramos na vida só mesmo fazendo duas coisas:

a) Ouça Jesus (v.12) – aquela mulher teve sua visão prejudicada. Mas seus ouvidos estavam abertos para a Palavra do Mestre. Na hora em que encurvamos, precisamos somente ouvir a Jesus. E Ele nos chama para vir para o meio!

b) Fique embaixo das mãos de Jesus (v.13). Aquela mulher, com toda a dificuldade e pressão que tinha sobre seus ombros, sai da onde estava e vai para debaixo das mãos de Jesus. Não há Diabo que consiga se interpor entre nós e a abençoadora mao de Jesus quando decidimos ir até o Senhor. Não há pressão, responsabilidade, obrigações, expectativas que resistam ao tratamento de Jesus, porque ELE nos alivia de toda a carga (Mt.11:28). Não há nada que nos prenda cujas cadeias, correntes Jesus não possa quebrar!

O que voce está fazendo entao fora das mãos de Jesus?

Pr.Sergio Dusilek

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novembro 13, 2008

SUBMISSÃO (Ef.5:21)

Filed under: 1 — sdusilek @ 2:04 am

Introdução;

Abordar a submissão no contexto da pós-modernidade é quase um crime. Isso porque o movimento feminista baniu esse termo do vocabulário moderno. Além disso a crescente aura de contestação, de rebeldia e de questionamento das instituições, fez com esse termo ganhasse um contorno ainda mais desgastante. Num contexto onde não há referenciais, onde o poeta popular, desencantado cantava “meus heróis morreram de overdose, meus inimigos estão no poder”, você deve convir que “submissão” jamais vai ser bem vista.

O problema é que sem submissão não há relacionamento possível. Todo sociólogo sabe que o mínimo exigido para que um grupo de pessoas caminhe junto é ter um mesmo objetivo, um mesmo alvo. E submissão é exatamente isso: estar debaixo da mesma missão; focados na mesma meta. Antes de envolver pessoas, a submissão envolve ideais.

Sem submissão os relacionamentos fraquejam. As famílias morrem e a Igreja padece. Sim porque o apóstolo Paulo em pelo menos três vezes (Rm.12:10; Fl.2:3 e Ef.5:21) é claro quanto ao Cristianismo que Jesus veio inaugurar: uma fé que preza pela humildade e não pela vaidade. Que visa o interesse do outro e não o consumo ou o bem estar pessoal.

Dos três textos citados o mais claro é o de efésios. Esse verso é um verso ligação que conecta a idéia principal anterior que é a da plenitude do Espírito Santo com as recomendações sobre a conduta familiar. Isso porque para ser cheio do Espírito é preciso submissão a Ele. De igual modo para compreender a vontade de Deus é necessário ser submisso a Ele. E para ter uma família em paz e com ausência ou menor incidência de conflitos? A receita é submissão para ser vivida no seio familiar.

O que acontece então quando não há submissão?

1) Sem submissão não há ordenamento e paz;

O caos se instaura em lares, igrejas e em grupos nos quais reina a insubmissão. Ao invés de se experimentar edificação, a experiência é de mutilação. Ao invés da construção conjunta, a obra acaba sendo de aniquilação do que existe e de entulhamento do que poderia vir a existir. Os sonhos não existem e nem subsistem no ambiente caótico.

A palavra que o apóstolo Paulo usa em Ef.5:21 é hypotasso. O apóstolo usou ela por mais de vinte vezes em suas epístolas. Ela traz no seu bojo a figura militar, onde há patentes e hierarquia a ser respeitada. Nesse sentido, submissão também seria colocar-se abaixo, abrir mão dos direitos e da própria vontade. Isso em prol de uma missão maior. Numa guerra o soldado cumpre ordens em prol de um objetivo maior que é derrotar o inimigo. Interessante é destacar que John Stott vai dizer que no âmago de hypotasso está a palavra táxis que significa ordem. Isto é: sem submissão jamais ocorrerá qualquer tipo de ordenamento e de paz nas relações.

Sua casa só vai ser ordenada quando todos perceberem que lutam pelo mesmo ideal: pela sua própria família. Sua igreja só vai parar com as facções e dissensões quando der conta de que a luta é contra o Diabo (Ef.6) e não contra pessoas. Sua comunidade eclesiástica vai parar de digladiar quando estiver sob a mesma missão, sob o toque da mesma trombeta.

2) Sem submissão há perda da unidade;

Quando nós desconhecemos ou desprezamos a nossa missão passamos a “dar cabeçada” por aí. Isto porque sem um ideal comum que nos una passa a imperar justamente os conflitos. E cá entre nós, boa parte dos conflitos que existem são causados por nossa vontade de viver e reafirmar sobre o nosso próximo a nossa individualidade.

Pessoas que assimilaram o valor cultural do individualismo têm dificuldade de lutar pela unidade. Lembro-me de um relato de um grupo de jovens que se reuniu em uma casa para passar a tarde junto. Lá eles iriam almoçar, providenciando a feitura da comida para tanto. Uma vez pronta a refeição, houve tal alvoroço em direção a panela e tanta despreocupação com os outros, que no final pelo menos três pessoas ficaram sem ter o que comer, inclusive a dona da casa. O que não seria isso senão uma sinal de individualismo?

Viver a individualidade contra a coletividade é encarnar o que Nietzsche chamou de “vontade de poder”. Para o filósofo alemão, a moral cristã era fraca porque não dava vazão aos instintos (expressão máxima de individualidade). Nesse sentido cremos que ele estava errado porque a moral cristã, que preza não só a ação, mas também se preocupa com a intenção, é forte por conta desse controle que exerce sobre o instinto.

Sem submissão há perda da unidade. É triste ver filhos insubmissos aos seus pais produzindo quebra da unidade e gangrenando as relações na família. É ruim também ver igrejas em conflito com sua liderança pastoral (a recíproca também acontece) e que jogam por terra o maior testemunho e a maior força evangelizadora que temos que é nosso amor e nossa comunhão (João 17:21; Atos 2:42-47).

Com a perda da unidade, como poderão andar dois juntos (II Cor.6:14-16)? Muito do desacordo vem da ausência ou da perda da submissão mútua.

3) Sem submissão não há crescimento e amadurecimento

Talvez uma das grandes provas de maturidade e de crescimento não só emocional quanto espiritual seja a capacidade que nós temos de nos submeter, conquanto não concordemos. Ser submisso não é ser concorde; ser submisso é reconhecer a fonte de autoridade que instituiu aquela liderança seja no lar, na sociedade ou mesmo na família. Jesus não concordou com Pilatos, mas reconheceu a autoridade (exousia) dele como governante e asseverou que ela, em última análise, vinha de Deus (João 19:11). Nem sempre concordei com um dos pastores que tive e que mais amei. Mas aprendi a ser submisso a ele. Nem sempre concordei com meu pai, mas fui submisso a ele.

Na rebeldia não há crescimento e tampouco caminho para a maturidade. Pessoas que são espiritualmente rebeldes são insubmissas. E pessoas assim jamais serão cheias do Espírito e dificilmente apresentarão algum fruto do Espírito (Gl.5:22) ou algum fruto em termos de vidas ganhas e salvas para Jesus.

A maturidade é um processo não um estalo. Ela se ganha e se adquire trilhando um caminho e não buscando passagens por atalhos. Não se chega a maturidade queimando etapas. Antes pelo contrário: se chega nela percorrendo e vencendo desafios. O olhar do imaturo é que bom que escapei/fugi do problema. O olhar do maduro é que bom que Jesus me deu vitória sobre a minha dificuldade. O olhar do imaturo é de chateação quando Deus não dá aquilo que ele quer, pede e por vezes “exige”. Já o olhar da pessoa madura é de gratidão a Deus pela sua presença e pela sua Graça em meio as tribulações (2 Cor.4: 16-18; 11:30, 12:8-10; João 16:33; Ap.5). O imaturo quando repreendido se ofende; o maduro acolhe a repreensão e muda (Vide Pv.26).

A verdade que todos nós somos passiveis de exortação, a qual deve ser exercida no tempo certo (na hora que Deus der), do modo certo (em amor), com o espírito certo (conciliador) e da maneira certa (você e a pessoa a ser exortada). E quando somos ou formos exortados, que antes de haver qualquer rebeldia, que oremos e reflitamos sobre aquilo que nos foi exposto.

4) Sem submissão há soberba e envaidecimento

Gosto de pensar que a tirania, o governo despótico, autoritário não advém de um povo submisso e sem posicionamento, e sim de um povo insubmisso. É justamente a perda de missão e da visão unificada que vai gerar a intolerância e a repressão. Um governo exerce “mão de ferro” e seu governante encontra respaldo e justificativas justamente na ameaça da perda do controle social. É quando as partes não se ouvem: o povo não quer desistiu de falar ao governo e este por sua vez não quer nem tentar ouvir o povo.

Em toda a forma liderança tirânica e autoritária há dureza e petrificação do coração (Ez.36). Isso porque a vaidade passa a tomar conta dessa vida fazendo com que a pessoa perca por completo a capacidade e a disposição para ouvir. A vida passa a ser ensimesmada, exercida de modo egoísta e as pessoas passam a ser descartáveis para aqueles que são soberbos. Ingressa aqui o utilitarismo relacional – as pessoas passam a ser usadas como objetos, durante e em busca de um determinado fim.

Na Bíblia houve um povo assim. Eles são descendentes de Esaú e são conhecidos por serem a nação de Edom. Os edomitas eram pessoas que tinham sensibilidade espiritual (assim como Esaú sabiam o que era de Deus), mas que ao mesmo tempo viviam sem compromisso. Eram tão soberbos (vide o livro de Obadias) que negociavam valores espirituais e divinos por aquilo que julgavam ser importante. Se a pureza sexual era (e é) um valor do Reino de Deus, os edomitas tinham sensibilidade suficiente para reconhecê-la como tal, mas também a sem-vergonhice de abrir mão deste valor moral e espiritual quando bem lhe conviesse. Aliás, pensando nisso, será que não temos gente de Edom andando no meio do povo de Deus?

Conclusão

Qual seria então a grande marca de alguém submisso, e particularmente falando, de submisso a Deus? Penso que é a entrega. Um crente submisso é aquele que dá o leme do barco para Jesus guiar. Um crente submisso não deixa Jesus dormindo na popa (parte de trás do barco), mas coloca-o na proa para dar direção (Lc.8:22-25). Um crente submisso, tendo um filho em estado grave no hospital, ao invés de tomá-lo para si, entrega-o para Deus (Gen.22; I Sm.1-2).

Quem sabe agora não seria a melhor hora para você entregar essa coisa, essa pessoa ou mesmo uma situação que você ainda tenta manter o controle sobre ela, embora reconheça que não tem mais controle algum?

Pr.Sergio Dusilek

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