Novos Caminhos, Velhos Trilhos

abril 22, 2016

“DEUS ODEIA O PECADO, MAS AMA O PECADOR”

Filed under: Sem categoria — sdusilek @ 3:35 pm

“DEUS ODEIA O PECADO, MAS AMA O PECADOR” (Rm.5:6-10)

A formulação correta desse jargão é como lemos acima. A inversão da ordem, conquanto não desbaste o conteúdo, abranda a força da sua aplicação. Isso porque esse jargão é comumente usado em contextos legalistas, ou mesmo como resposta padrão daqueles que foram pegos na incoerência presente no discurso religioso.

O legalismo se faz presente pela primazia do pecado e não do amor de Deus. Não é o pecado que pauta nossa relação com Deus, mas sim o Seu Amor. Ocorre que para muitas comunidades religiosas essa formulação aponta para o desejo inócuo de experimentar o amor de Deus após provar seu merecimento, após vivenciar uma pretensa auto-justificação pessoal. Sem perceber, ao invés de acolher pecadores e se ver como pecador, tais comunidades acolhem religiosos… ora, quem mais consegue se ver sem pecado, que não os religiosos? O ápice dessa compreensão é a noção da impecabilidade do crente…

O legalismo presente nessa terminologia se mostra na ênfase ao erro. Isso porque a Lei só ganha facticidade, concretude quando há o seu descumprimento. Mas será que esse jargão está correto? Parece que seus termos estão né, afinal a Bíblia fala de uma ira divina contra os filhos da desobediência, além de reafirmar o amor de Deus.

Ao que parece as coisas não são tão simples como expressas nesse jargão. E isso principalmente pela junção dessas partes. Senão vejamos:

  • Não há como Deus amar outro tipo de pessoa que não seja o pecador (v.8).

A Palavra afirma que todos pecaram (Rm.3:23) e que não há homem algum que não peque. Há assim uma indissociabilidade entre o que somos e o que recebemos, que é o amor de Deus. Nosso status de pecador nos torna absolutamente carentes do amor de Deus, pois não há outro motivo para sua aproximação e redenção que não seja o SEU AMOR.

Interessante que Heidegger na obra “As Marcas do Caminho”, ao comentar sobre a positividade da teologia, ressalta a condição de pecador do Dasein. Ele diz que o “pecado só se revela na fé, e só o crente pode existir faticamente como pecador”. Na percepção do filósofo alemão, o pecado é um auto-lançamento de Deus, se tornando a determinação da crença. Nós cremos, exercemos nossa fé, justamente porque pecamos ou porque temos medo de pecar. E esse temor gera a angústia, espaço onde se origina a crença, a fé.

Se não há como afastar nossa condição de pecadores, resta-nos destacar que:

  • O Amor de Deus é pleno, puro, doador. Não somos dignos de ser amados. E a única maneira de nos relacionarmos com Deus, insistimos, é pelo Seu amor.
  • Justamente por sermos pecadores é que o amor de Deus é trazido à existência. Deus é amor (I Jo.4:8) e como tal, o amor divino reside como essência nEle. Mas a existência é o âmbito do humano. Esse amor perfeito ganha contorno justamente nessa interação com a nossa pecadora condição.
  • Literariamente a nossa condição de pecador realça o amor de Deus por nós.
  • Há então uma indissociabilidade dos termos.

Não é um ou outro, mas um e outro. No texto de Romanos isso aparece nos versos 6, 8, 10. Paulo fala que éramos “fracos”, “pecadores” e “inimigos”. Não há como ser diferente. De uma incapacidade (fracos), uma impossibilidade para Deus, para um relacionamento com Ele. Somos fracos até mesmo para resistir ao pecado (Heb.12:4). E isso acontece na plenitude do tempo (v.6), que é o tempo do cumprimento.

Há também um tempo do cumprimento de Deus em nossas vidas. Cabe-nos a atenção para que esse momento não seja perdido por nós. Deus continua tendo um tempo certo para os pecadores, e isso a começar pela ação vicária de Cristo.

O amor de Deus é provado por Ele ao chamar para si uma categoria da nossa existência que é a morte. Na morte de Cristo, tudo mais ganha significação, sentido, substância. E a morte de Cristo nos leva ao Pai, mas também traz sua vida para nós (v.10). Em outras palavras a prova desse amor é dada, segundo Stott, tanto no elevado custo do presente dado como na elevada ausência de condição de quem recebe esse presente.

Em termos bíblicos não há como falar em amor de Deus sem falar na pecaminosidade humana; e vice-versa. Nesse sentido é inoperante essa forma de querer separar amor e pecado no jargão.

 

  • O que nos resta a fazer?

Isto posto quero sinalizar algumas coisas que precisamos reter:

3.1) Não há como dissociar o ser humano de sua condição pecaminosa. O pecado nesse sentido evidencia o amor de Deus por nós (fracos, pecadores, inimigos)

3.2) O fato de sermos pecadores sublinha o amor de Deus, realça o tamanho e profundidade desse amor (Rm.8)

3.3) Olhe para Jesus, o único sem pecado. Ele escolheu amar os pecadores, não puni-los. Mesmo porque o pecado em si é uma punição, uma vez que não há pecado que não traga sofrimento, dor. Por que teria que sermos nós a impingir sofrimento?

3.4) Sem pecado não haveria cruz. Sem pecado não seríamos constrangido pelo amor de Deus. Sem pecado jamais entenderíamos que o “Reino de Deus é o reino que começa exatamente do outro lado da cruz” (Karl Barth).

3.5) O amor de Deus se mostra nas pressões e perseguições que recebemos. O texto de Romanos 5 fala de thlipseis que não é um sentimento, mas uma ação externa que sofremos. Essa pressão e perseguição é contrastada por outro ação – que é o amor de Deus. Tá sofrendo perseguição? Acolha o amor de Deus em seu coração.

3.6) Esse amor nos constrange. O religioso age por medo da lei, da punição. O crente busca agir pelo constrangimento que o amor de Deus gera em nós. No amor não há Lei.

 

ASSISTA VÍDEO – LINK: https://www.youtube.com/watch?v=yCuUwvDdB1Y

 

abril 11, 2016

Existe o “centro da vontade de Deus”?

Filed under: Sem categoria — sdusilek @ 3:20 pm

Palavras Apenas, Palavras Pequenas

Se tem uma coisa que delineia a espiritualidade evangélica no Brasil contemporâneo é o uso de jargões. Valores, sonhos, ideias e ideais estão contidos nesses slogans de fé que são repetidos em shows gospel, transcritos em posts nas redes sociais, falados como mantras em cultos. Apesar dessa incidência, uma pergunta precisa ser feita: eles são bíblicos? Digo, tem raízes profundas na melhor interpretação bíblica? Parece que não.

Soma-se a isso a dificuldade que muitos tem, por ausência de profundidade bíblica, de perceber o que realmente está por detrás destes slogans. Há falta de profundidade e, por conseguinte, excesso de superficialidade; há irracionalidade nessas proposições que nada tem a ver com a presença da fé, mas sim com a ausência de reflexão. Palavras apenas, palavras pequenas.

Ao iniciarmos essa série de mensagens selecionando e, porque não dizer, descontruindo alguns desses jargões, queremos convidar a você a pensar e refletir sobre aquilo que ouvimos, por vezes repetimos, e que se tornou lamentavelmente um sinal de pertença ao Evangelho. Na abordagem desse tema tencionamos também que fique claro que os jargões de fato são palavras pequenas perto da Palavra de Deus.

 

[PRIMEIRA MENSAGEM]

“QUERO ESTAR NO CENTRO DA VONTADE DE DEUS” (Jn.1:1-2)

Certamente você já ouviu esta expressão. Seja vinda do púlpito, seja vinda numa oração, numa conversa com um amigo ou até mesmo numa conferencia missionária… A questão que se coloca ao assumir esse jargão é se, ao estabelecer “o centro da vontade de Deus”, também não seria criado automaticamente o subúrbio, a periferia ou mesmo a zona Sul da vontade de Deus. E aí? Será que tem gente “predestinada” ao subúrbio, ou mesmo ao conforto da Zona Sul, até mesmo na vontade divina? Não seria isso um sistema de castas com sabor “bíblico”?

O que nos propomos aqui é analisar, dentro do espectro bíblico, o que deve ser entendido como a vontade de Deus.

 

  • A Realidade Bíblica em contraposição ao jargão;

A primeira verdade que deve ser destacada é que em nenhum momento na linguagem bíblica há uma localização da vontade de Deus, o acréscimo de um advérbio de lugar que localize o exercício da vontade de Deus. É verdade que ela pode vir com uma indicação de lugar, como quando Deus convida alguém a deixar sua terra e sua parentela e ir para um determinado país, para lá viver o Evangelho (caso de Jonas, Abrão, etc). Contudo, precisa ser ressaltado que em nenhum momento da literatura bíblica a expressão “vontade de Deus” vem acompanhada de outros termos como “centro”, “periferia”, entre outros. Exemplo disso, pode ser visto na leitura dos seguintes e selecionados textos: Sl.40:8; Mt.6:10, 12:50; Jo.5:30; Rm.12:2; Ef.5:17; I Tess.4:3; Heb.10:36; I Jo.2:17).

Equivale a dizer que ou você está cumprindo a vontade de Deus ou está fora dela. Não há centro, nem periferia. Não há como estar mais próximo ou mais distante em termos de cumprimento da vontade de Deus.

 

  • Os Problemas que o uso desse jargão traz;

Agora é preciso analisar os problemas que esse jargão traz. Sugiro alguns, numa lista que não se esgota por si mesma.

2.1) Criação de uma neurose espiritual: crentes que não se realizam em Cristo, porque sempre acham (ou se questionam) que não estão suficientemente no centro, no meio do alvo. São piedosos, mas até mesmo por conta de um perfeccionismo pessoal, acabam perdendo a primazia de uma plenitude com Deus por se acharem sempre fora de um pretenso “centro” do querer divino.

2.2) O desenvolvimento de uma espiritualidade masoquista: para muitos o “centro” da vontade de Deus é sinônimo de intenso sofrimento. É fato que para sofrer em nome de Deus é preciso que você ame fazer a vontade dEle sobre todas as coisas. Verdade também é que alguns serão mártires. Contudo, também é verdade que nem todos serão. Somos todos convidados a darmos testemunho (a obra de Deus não pode ficar esquecida), sendo o martírio a expressão maior desse testemunho. Nem todo mártir o é pela justiça de Deus. Alguns o foram pela ação do Diabo mesmo.

No entanto tem gente associando sofrimento, penúria, com “centro da vontade de Deus”. Como se passar necessidade, ao invés de ser um reflexo do demoníaco nas estruturas de poder, fosse um sinal de profunda espiritualidade. Nesse sentido, ter uma vida boa ganha contorno imediato de pecado. Um empresário bem sucedido jamais estaria no “centro da vontade de Deus”, caso ela existisse. Agora se ele abandonasse tudo e fosse para a Síria… ah! Aí sim residiria um belo testemunho!! #SQN.

A vontade de Deus não se encaixa numa leitura marxista, nem tampouco capitalista. Não pode ser reduzida a uma localização geográfica, nem é dada ao romantismo. Ela é; simples assim. Difícil é vive-la… Veja a simplicidade da vontade de Deus para Jonas, e a complexidade de viver essa vontade! Como um judeu poderia pregar para os “nazistas” do seu tempo, o povo assírio? Difícil não é entender o que Deus quer; difícil é colocar a vontade de Deus acima de nossa.

2.3) O terceiro problema do uso do jargão é a acomodação: ora, se há um centro da vontade de Deus eu posso cumpri-la com um certo distanciamento. Deus quer que o deputado evangélico pare de ser corrupto, mas ele oferta para a Igreja…Como se a oferta isentasse o erro, e como se fosse possível viver na vontade de Deus mas “pelas beiradas”. Não, não é. A vontade de Deus exclui a possibilidade de uma “acomodação espiritual”.

2.4) O quarto problema é a fuga (Jonas 1:3): É o caso de Jonas. Deus quer que ele seja profeta em Ninive. Ele vai ser profeta em Társis… linda essa compensação não? Compensa o preconceito com uma auto-punição… Toda fuga de Deus implica na vitória do nosso preconceito sobre a vontade de Deus. O longe é perto…

Fato é que Jonas esqueceu do fato que não dá para viver a vontade do Senhor longe da presença do Senhor. Uma coisa leva a outra; uma coisa está necessariamente imbricada na outra.

2.5) O quinto problema é que esse jargão revela nosso distanciamento de Deus, apontando nossa dificuldade de discernir Sua vontade. Com todos os seus problemas, Jonas sabia muito bem identificar o querer de Deus com clareza. E como ele fazia isso? Intimidade com Deus.

2.6) Por fim ao falar de “centro da vontade de Deus” há um aceno para nossa limitação de compreender Deus, de assumir que Ele não pensa como pensamos (Rm.11:33-35; Is.55:9); de que o Senhor está sempre fora e além da caixa. Isso porque a vontade de Deus é balisada pelo AMOR dEle. Amor esse que usa a vida de Jonas para salvar todo tipo de gente (desde marinheiros (1:15-16) até os ninivitas (cap.3). Amor esse que mostra que nossa ira (como a de Jonas (4:4,9) pode ter suas razões, mas nenhuma delas tem a ver com o amor de Deus.

 

Ao terminar e concluir esses breves apontamentos sobre o uso desse jargão no meio evangélico quero relembrar e sublinhar sua impropriedade e ausência do mais puro teor bíblico. Por vezes a pretensa “liberdade poética” que muitos alegam para o uso e criação de tais expressões acaba ferindo e contrapondo a mensagem bíblica. A poesia deve nos fazer ir além, num convite da beleza para a leveza, para o voo; e não servir para cavar um buraco jogando a profundidade bíblica pra baixo da terra.

Isto posto tenhamos cuidado ao usar essa expressão, mesmo quando tiver ligada a ênfase, porque ela pode criar uma situação em que compatibilizamos o que não pode ser compartimentado/misturado. Que busquemos intimidade com Ele para sabermos o que Ele quer e também para cumprir o querer dEle. E que numa indecisão que nos sobressalte como cristãos, escolhamos AMAR.

 

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