Novos Caminhos, Velhos Trilhos

fevereiro 26, 2017

Pastores se cansam

Filed under: Sem categoria — sdusilek @ 6:46 pm

Algum tempo atrás presenciei uma conversa em que um membro de igreja evangélica se mostrava surpreso com a informação de que pastor tira férias. Para ele isso era inconcebível, afinal… como um pastor pode deixar de ganhar almas, dá uma pausa nessa magnífica missão? Na sua compreensão havia, logicamente, algumas distorções: a de que o pastor é quem ganha almas (fruto do papel do púlpito no movimento puritano), de que pastor não se cansa até mesmo porque não trabalha (segundo alguns, numa clara confusão de ausência de uma agenda definida com as demandas do ministério), além de que podia haver uma projeção, o que normalmente acontece, de alguém que deveria ter um emprego informal, portanto sem férias, e que defendia (projetando) a mesma coisa para seu pastor… não é que ele não gostasse do seu pastor; por vezes essa projeção é simplesmente inconsciente.

Fato é que pastores se cansam. Jesus se cansou. Não foram poucas as vezes que o Mestre se retirou para um monte para orar, para descansar da demanda das multidões. Isso porque no agito da multidão e nas suas urgentes demandas, normalmente não sobra espaço para que o líder se coloque ou mesmo que ele respire.

Mas o cansaço pastoral é bom sinal? Eu diria que sim, caso fosse observado como um sinalizador para uma parada, para uma retirada. Isso porque uma igreja que tem um pastor que se cansa pode ter consigo o privilégio de ter alguém que é humano e que tem realmente um coração pastoral. Infelizmente, nem todo pastor tem um coração pastoral… têm o título, mas não têm a vocação… Cabe aos membros da igreja este cuidado com o pastor. Está percebendo seu pastor mais irritadiço, mais cansado, menos atento? Sugere a ele e à liderança um tempo de descanso… que na verdade não será um descanso do pastorado (ninguém despe sua vocação), mas sim daquela comunidade onde ele atua.

Isto posto, gostaria de sugerir uma pequena lista (que não se esgota em si mesma) de fatores que podem levar ao cansaço pastoral:

  1. Pêso institucional: há certas comunidades que possuem tanto “script” a ser cumprido que as relações perdem sua naturalidade e se tornam artificializadas. Todos ali cumprindo seus papéis, o que termina fomentando a criação de máscaras. A Igreja ao invés de ser uma comunidade autêntica que vive sua autenticidade, passa a ser uma espécie de “baile de máscaras”.  A observância dos ritos, o auto-enquadramento neles, gera perda de combustível emocional, cansando os que ali estão.
  2. O excesso de demanda também cansa. Há comunidades que absorvem demais o pastor. Ou porque são imaturas demais para poder lidar com suas questões, trazendo ao líder tudo que acontece; ou porque o pastor é tão bom que dá vontade de ficar perto dele o tempo todo. Ocorre que este tipo de excesso de demanda desgasta até mesmo os nossos “Moisés” (Ex.18). Não há líder que consiga se manter com saúde emocional com uma demanda que ultrapassa os limites do que é arrazoável. Até mesmo porque há chamadas que os membros consideram urgentes, mas que não o são. Aqui o pastor precisa refletir e fazer uma mea-culpa. Para alguns é cômodo ter uma comunidade de fé infantilizada, pois crianças não possuem habilidade crítica desenvolvida. O preço a se pagar é o excesso de demanda por questões menores. Se o pastor se propõe a ajudar a igreja a amadurecer, vai ter outro tipo de desgaste, que veremos agora, da incompreensão.
  3. A crítica desgasta, especialmente aquela que é fruto de incompreensão. Pastores que são “julgados” numa determinada situação, quando os membros não sabem da história e passam a desconsiderar a trajetória daquele líder que diz exatamente o contrário do que se passou a pensar e a verbalizar. Essa incompreensão desgasta muito e acaba por drenar a energia emocional do pastor.
  4. Perseguição. Há alguns membros que elencam o pastor como alvo de suas frustrações. Outros, por motivações infernais, passam a perseguir o líder. A questão que se coloca aqui é a perseguição infundada. Aquela que motivada por algum componente espiritual ou mesmo de adoecimento emocional é levada a termo. Como ao pastor não cabe retribuir na mesma moeda, a perseguição o conduz para o enfado e, não raras vezes, à precipitação do tempo de ministério pastoral numa localidade.
  5. Desgaste familiar. Pastores são pessoas e por vezes há desgastes na sua família que também fazem seu coração sangrar. Isso vai desde conflito conjugal à enfermidades, passando pela relação paternal. Nem o pastor, nem ninguém mais, tem família perfeita; portanto, a igreja precisa ter certa dose de compreensão e apoio para com a família pastoral, especialmente com os filhos. Se o pastor e a esposa estavam cônscios de sua missão como casal, ou mesmo da missão do marido, os filhos por sua vez não foram chamados a opinar.  São crianças e adolescentes como os outros; não são “pastorzinhos”. Por vezes o cansaço do pastor com o ministério pastoral advém do abatimento que recai sobre ele ao ver o insano peso que é colocado (com ou sem maldade) sobre seus filhos.
  6. Falta de descanso programado. Há pastores que não respeitam sua folga semanal, necessária para recarregar baterias. Há muitos irmãos que também não respeitam essa folga, esperando um problema agudizar, explodir para então chamar o pastor. E como explodem situações nos dias de folga e feriado! Veja meu querido, há coisas que surgem, como por exemplo uma perda inesperada. Porém há outras que podiam ser tratadas antes, até mesmo porque antes da explosão talvez ainda haja jeito de evitá-la. O fato que ao ultrapassar os limites do descanso e fazendo-o de modo sistemático, o cansaço se acumula e uma hora a conta chega na saúde pastoral. Deus ensinou o princípio do descanso, o qual pastores e igrejas precisam aprender a valorizar.
  7. A traição da liderança é outro fator de desgaste. É um componente ético-emocional. Pessoas que lhe acompanham ou que você acompanha e que de repente rompem com sua liderança. Pessoas que lhe acompanham ou que você acompanha sobre as quais se descobre posteriormente (daí a estupefação e o cansaço dela decorrente) que elas já estavam rompidas com todos projeto de liderança cristã, de santidade e coerência que o Reino pede. Essa traição é doída, e por ser assim enrijece o coração. O problema é que não há ministério possível com coração endurecido. Essa é uma área de extremo enfado… é deserto.
  8. A imaturidade dos membros que criam tensões desnecessárias. Pequenos choques sem reconciliações ou alguém com uma palavra de sabedoria para contornar essas rusgas acabam respingando no pastor. Ao fazê-lo, há uma perda de energia emocional, a qual vai sendo sugada a conta-gotas. Contudo, o fato de sair aos poucos não desmerece pra onde ela aponta: uma hora, essa tanque de energia emocional acaba, mesmo que demore. Há também que se registrar que ao cuidar de muitos, mas pequenos focos de incêndio relacional, o pastor costuma ficar sem tempo para a prática devocional, o que talvez  lhe garantisse um combustível extra para suas combalidas emoções.
  9. Falta de retorno da Igreja. Uma igreja que não responde, nem “sim”, nem “não”, as demandas, provocações e idéias pastorais, pode trazer um profundo desgosto e questionamento de chamado ao pastor. É quando o ralo está dentro do coração pastoral, escoando toda a energia emocional ali presente. Essa frustração ministerial ao lidar com “walking deads” eclesiásticos, pode trazer muita desgaste ao coração do pastor, tornando-o  desde insensível, até mesmo carente.
  10. Uma igreja essencialmente carnal. Lidar com uma igreja secularizada que busca o lenitivo espiritual e pastoral, ao mesmo tempo que se fere com o pecado, desgasta o pastor. Embora ele esteja ali também para escutar os membros mediante aconselhamento pastoral, é muito triste e desgastante para o coração de um pastor ver como suas ovelhas têm se cortado e se machucado nos arames farpados do pecado. Ouvir como algumas, embora com a vida (ou sobrevida???) preservadas, tiveram pedaços inteiros arrancados pelas garras de lobos, ursos e leões. Dói. Desgasta. Faz o coração chorar! Por fim, cansa ver tanta gente cansada e que insiste nesse projeto de vida que na verdade é um convite à morte diária.

Ao propor esta lista, não quero dizer que não existam outros fatores que fomentem o cansaço pastoral. Eu mesmo não citei o desgaste com colegas, com denominação… Nem tampouco quero dizer que ministério se faz sem se cansar. Pastores que não se cansam são aproveitadores, falsos profetas, sugadores da gordura alheia. Entretanto, ao expor e propor essa lista, convido-lhe a orar e a cuidar do seu pastor, bem como aos queridos colegas, sugiro que se leiam, se percebam. Uma vez cansados, é melhor parar um pouco, para depois poder terminar a corrida. Aliás, o que você faria numa maratona ao ficar exausto no terceiro quilômetro ou mesmo no vigésimo-sétimo? Daria um “sprint” final mesmo sabendo que falta muito ainda e que tal acelerada não levaria você a cruzar a linha de chegada? Que poderia, esse “sprint” levá-lo ao desfalecimento? Pare, respire um pouco, volte andando e se sentir condições, volte a correr.

Um gaiato poderia dizer nesse momento: mas eu não gosto e nem corro maratonas. Para você eu responderia: você é uma pessoa excelente e útil em muitas coisas; contudo, muito possivelmente não sirva para o ministério pastoral.

Aos pastores que exercem o ministério com dedicação, comprometimento e que por isso estão cansados, minha admiração e oração para que vocês sejam renovados. Há muito mais à nossa frente. Que Deus nos abençoe.

Pr.Sérgio Dusilek

sdusilek@gmail.com

 

 

 

 

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fevereiro 13, 2017

VELHOS FATOS, NOVO OLHAR.

Filed under: Sem categoria — sdusilek @ 5:43 pm
“Não tenho muito tempo de vida, e a minha esperança no Deus Eterno acabou. Eu me lembro da minha tristeza e solidão, das amarguras e dos sofrimentos. Penso sempre sobre isso e fico abatido.
Mas a esperança volta quando penso no seguinte: O Amor do Deus Eterno não se acaba, e a sua bondade não tem fim. Eles se renovam a cada manhã, pois Grande é a Fidelidade do nosso Deus.” (Lamentações de Jeremias 3:18-23 – NTLH adaptado)
Por vezes a realidade nos convida a cegueira. Em muitas ocasiões é melhor desviar o olhar do que ver. É incrível que em pleno século XXI a gente se depare com cenas que desnudam a humanidade, revelando toda a barbárie de nossa espécie. Hobbes estava certo ao dizer que o “homem é o lobo do homem”. Vemos isso nas relações, no nível institucional… porém sinceramente pensávamos ter superado a barbárie até que o Espírito Santo (estado do Brasil) entra em colapso, e torcedores são atingidos do lado de fora do estádio do Engenhão, antes de um clássico.
Penso que essa realidade chocante que nos convida a desviar o olhar é que fez Jeremias perder, em algum momento, a esperança em Deus. O resultado é um só: abatimento e prostração, como lemos acima. Nessas horas entra em ação um dos mais lindos mecanismos mentais criados por Deus: a memória.
Jeremias então é instado pela memória a conflitar as experiências amargas da vida com a experiência e realidade do Supremo Amor de Deus. O resultado deste embate no octógono cerebral? Vitória arrasadora do amor de Deus que restaura a esperança perdida e que traz novo fôlego para a vida. Sim, a renovação não vem da melhora externa, de uma realidade que dê gosto de olhar; a renovação vem do Amor de Deus derramado em nós. Acontece de dentro para fora.
Particularmente penso que a memória foi criada por Deus por algumas razões, as quais passo a listar, sem a pretensão de que ela seja exaustiva:
1) a memória nos ajuda a não repetir os mesmos erros e a não abrir o coração para quem não merece confiança, uma vez que abusou dela no passado;
2) a memória pode e deve guardar nossas muitas experiências com Deus para que, nos dias de sequidão, sejamos banhados pela certeza de um Deus que não é só dos patriarcas, mas que é nosso Patriarca;
3) a memória é um convite aos bons registros. Há muita coisa boa acontecendo. Guarde no seu HD, aquele que está na sua alma. Esses registros nos fazem sorrir, mesmo estando sozinhos;
4) a memória mantém vivo o que já passou. Falo aqui mais enfaticamente sobre pessoas que amamos e que já partiram. Penso que Deus criou a memória para que nos ajudasse a superar tais perdas. A memória, o registro, mantém vivo os fatos da existência comum. E não só os fatos como também as próprias pessoas, mediante o legado relacional, moral, espiritual, afetivo, situacional que deixaram. Ao adentrarmos nesse espaço sagrado da alma, podemos reviver muitos momentos que para nós foram doces.
5) a memória permite-nos uma certa abstração na vida. Não acho que a negação da realidade seja boa, mas tendo a concordar que a convivência sistemática com ela tem profundo poder adoecedor. Passe uma semana de suas férias vendo só telejornais e nada mais e veja se você não vai adoecer. A memória permite-nos viajar, retornar ao passado, sorrir com ele, abstrair ainda que por alguns instantes da dura realidade que vivemos. Creio que nisso está um processo de defesa da alma, bem como de sua oxigenação. Verdade também que essas abstrações, esses exercícios de viagem mental, tem sido substituídos pela consulta frenética das redes sociais. É como se a internet fosse nossa “oxigenação”…(???!!!).
Que você traga a memória aquilo que dá esperança, a começar pelo Amor de Deus e suas experiências com Ele, passando pelas suas boas memórias de vida.
Deus abençoe sua semana, trazendo à sua consciência as mais doces memórias.
Pr.Sérgio Dusilek
sdusilek@gmail.com

fevereiro 3, 2017

Começar de Novo

Filed under: Sem categoria — sdusilek @ 2:08 pm
Começar de Novo
“e ninguém seja devasso, ou profano como Esaú, que por uma simples refeição vendeu o seu direito de primogenitura. Porque bem sabeis que, querendo ele ainda depois herdar a benção, foi rejeitado; porque não achou lugar de arrependimento, ainda que o buscou diligentemente com lágrimas” (Hebreus 12:16-17)
Esta semana, nos três dias que passamos em Búzios, vi na praia da tartaruga (a qual não deu o ar da graça), um rapaz vendendo artesanato. Uma de suas obras era um pequeno pilão, para efeito decorativo (imagino eu). A figura do pilão aponta para a necessidade de esmiuçamento, de algo que reduz um elemento compacto à pó.
Não é assim que Deus usa as circunstâncias da vida muitas das vezes para nos tratar? Estas adversidades batem com força sobre nós. Nos sentimos esmagados, impotentes, fragilizados… Mas era pra sentir algo diferente? Será que nessas horas que Deus quer tratar conosco é para ficarmos fortes, não quebradiços? Penso que não.
Normalmente esses momentos estão ligados ao arrependimento. É uma besteira sem tamanho essas celebridades dizerem que não se arrependem de nada do que fizeram na vida. Ora, que vida é essa que nunca encontrou motivos para se arrepender? Que coração é esse que não reconhece o erro? É lógico que todos erramos; é igualmente lógico que todos devêssemos nos arrepender. Por exemplo: eu me arrependo de ter desistido, depois de 2 anos de inglês, do curso que fazia e que me permitira uma fácil fluência, à qual faz muita falta hoje… Feio então meu querido não é se arrepender, é não se arrepender!
Mas por que o arrependimento é bom? Porque ele nos dá a chance de começar de novo. E aqui entra Jesus, Sua Graça, seu modelamento que só acontece com quem é QUEBRANTÁVEL. Um quebrantamento diferente do de Esaú, o qual além de possuir uma natureza diferente da de um filho de Deus, chorou porque queria reaver a benção perdida. Ou seja: não foi um choro de arrependimento genuíno, mas sim pela simples e grande perda que tivera. Esaú foi alguém que desprezava a importância da dimensão espiritual da vida. Era imediatista e hedonista. Ora, quem procura viver desse modo passa a ter uma vida sendo escrita a partir de continuidades e descontinuidades, jamais com recomeços. Por mais que se esforce e chore, não encontra lugar de arrependimento porque no fundo não reconhece que errou. Suas escolhas giram em torno do acerto (do que dá resultado) e não em torno do que é certo.
Não foi Deus que não acolheu o choro de Esaú. Foi o irmão de Jacó quem o inviabilizou quando não chorou pelo seu erro, vertendo lagrimas somente pela sua perda. Deus acolhe todo aquele que se arrepende. Deus recolhe toda a lágrima vertida. E o melhor: para os arrependidos, Deus estende Sua poderosa Mão para ajudar você a começar de novo.
Deus abençoe sua semana!
 
Pr.Sérgio Dusilek

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