Novos Caminhos, Velhos Trilhos

maio 16, 2016

QUEM NÃO VEM PELO AMOR, VEM PELA DOR.

Filed under: Sem categoria — sdusilek @ 11:25 am

QUEM NÃO VEM PELO AMOR, VEM PELA DOR.

(Mateus 19:22)

Nós prosseguimos em nossa série falando sobre Palavras Apenas, Palavras pequenas, no intuito de analisar os jargões evangélicos e perceber neles não só sua superficialidade, como também uma contrariedade com o texto bíblico. Há coisas que precisam ser descontruídas. Nesse sentido vale a pena lembrar que esta mensagem é de cunho temático, o que se diferencia de um sermão tradicional usado aqui na Igreja pela profundidade de análise de um texto. Especialmente hoje vamos abordar vários textos sem perder a profundidade, numa perspectiva transversal.

A questão que se coloca agora é: você acredita no jargão acima? Sua experiência com Deus é fruto dele? Ou conhece alguém que tenha passado por isso? Pode alguém que desfruta de um extremo bem estar caminhar em direção a Jesus sem ter que passar pelo vale de Baca, pelo vale de lágrimas (Mt.19:22)?  De maneira interessante, no documentário “A História de Deus” exibido no National Geographic com Morgan Freeman como âncora, no episódio 4 da temporada 1, falou-se do caso de Alcides Moreno, limpador de janelas de Manhatan, que ao subir com seu irmão na plataforma para limpar as vidraças, teve os dois cabos rompidos, caindo do 47º andar. Após 3 semanas no hospital em coma, Alcides viveria perfeitamente se não fosse a dor da perda do irmão. Ele se pergunta até hoje porque ele foi preservado e seu irmão não. A dor trouxe um questionamento, o milagre a possibilidade de fazê-lo; contudo ele não está mais próximo de Deus.

O que se quer mostrar aqui é que não necessariamente a dor encaminha alguém para Deus. Mesmo assim devemos ter a expectativa paulina, revelada no seu diálogo com o Rei Agripa (Atos: 26:28-29). Vamos então há algumas lições bíblicas sobre o assunto.

  • A dor abre espaço para o espiritual, para o divino.

Não necessariamente ela desemboque em Jesus. Contudo parece-nos verdadeiro que a dor abra espaço para o divino, para o espiritual. Isso pode especialmente ser percebido na Europa após a modernidade. O critério do uso, da utilidade afetou a religiosidade. Deus e a religião passaram a ser hipóteses inúteis (Edouard Bone). A secularização e o progresso científico deslocou, ou mesmo descartou Deus. Contudo as situações limites (Karl Jaspers) para as quais são necessárias expressões limites (Paul Ricoeur) continuaram. A morte e a perplexidade continuaram invadindo a vida das pessoas e, ainda que não seja suficiente para  ensejar um relacionamento com o divino, pelo menos abre janelas para experimentá-lo ou busca-lo nos momentos de dificuldade. Não raro templos vazios nos serviços dominicais encham nos momentos funerários.

Ao que tudo indica em parte do mundo, a mais desenvolvida, a idéia de uma religião que tivesse mais aspecto de capelania ganhou força, como previa Charles Elliot. É inevitável que na dor o ser humano busque um lenitivo. Por isso que Charles Spurgeon afirmou que “Deus sussurra nos momentos felizes, mas grita na dor!”. Não é que Ele grite, mas que nossa sensibilidade aumenta, pois a morte, sua iminência ou mesmo sua violência nos remete a nossa condição criatural.

  • Se a dor abre o espaço para o divino, é preciso que as pessoas sejam conduzidas a Jesus.

Perceba que a dor não é garantia de encontro com Jesus, mas de abertura para o espiritual. Dessa feita, as pessoas se abrem para qualquer coisa, inclusive para Deus. Mas perceba que muitas para encontrarem Jesus precisarão de uma condução, de alguém que O apresente. Não foi esse o caso do Paralítico de Carfanaum e do Cego de Betsaida? A dor de cada um os dispuseram para encontrar Jesus, mas se não fossem conduzidos até Ele, possivelmente jamais o encontrariam.

Fato é que na literatura bíblica são poucos os casos (como o da mulher hemorrágica e do cego de Jericó) de pessoas que encontraram sozinhos Jesus na dor. É preciso que alguém os conduza, os apresente ao Mestre. Quem se habilita?

  • E isso nos leva a 3ª lição: A grande, diria até esmagadora, maioria dos personagens bíblicos não vieram a Deus pela dor, mas a experimentaram porque vieram.

Não foi assim com Jó? Tão piedoso que cultuava a Deus por si e pelos outros, por seus filhos no receio que alguém esquecesse fazê-lo.  Sofreu por amar a Deus, num drama que nós leitores somos introduzidos, mas que ele vivenciou sem saber do preâmbulo do capítulo primeiro, o que só aumenta a perplexidade.

Não foi assim com Davi que pastoreava o rebanho de sua família e que depois da divina unção experimenta dor, perseguição? E com Neemias? O Forest Whitaker (O Mordomo) de sua época, estava servindo ao rei até que sente o chamado para retornar a Jerusalém e experimenta dor na alma, tramas, ameaças… ao reconstruir os muros de Jerusalém.

Não foi assim com Daniel? E Atos 12? Tiago martirizado e Pedro salvo… assim como os irmãos Moreno citados no início desta reflexão. Isaías, segundo a tradição, fora cortado ao meio; Pedro crucificado de cabeça para baixo; Paulo decepado; Oséias experimentou a dor da traição ao se casar com uma prostituta.

Não foi então a dor que os levou a Deus, mas “Deus os levou” a dor. Não que Deus impinja o sofrimento a alguém, mas que ao obedecê-lo e amá-lo sobre todas as coisas, é possível e eu diria, bem provável, que experimentemos algum tipo de dor. Deus recebe, acolhe tanto as pessoas que vem pelo amor, quanto as que vêm pela dor. Deus as acolhe como elas estão como elas vêm. Contudo é mister notar que foi justamente a dor que tornou os personagens que citamos em grandes. E é na dor deles, que também é a nossa, que nos identificamos. A dor não é mandato divino mas seu grande instrumento de modelagem da vida tanto daqueles personagens presentes no texto bíblico, quanto da nossa vida.

O fato deles terem sido modelados ou mesmo passíveis de modelação, não é só o grande fator de identificação que temos para com eles, mas também seu elemento diferenciador da literatura clássica. Nesta última os heróis eram perfeitos, elevados, inatingíveis. Já na Bíblia eles são imperfeitos, têm seus corpos e almas marcados pelas dores e pelas vicissitudes da vida. Enquanto a literatura clássica reproduzia deuses ou semideuses, a literatura bíblica apresenta homens e mulheres com todas as suas imperfeições. Não é a toa que Auerbach fala da quebra do decoro, da biensancé, promovida pela Bíblia.

De uma forma especial a Graça de Deus, Sua face, brilha em nós quando passamos pela dor! É como Paulo constatou: o poder dEle se aperfeiçoa em nossa fraqueza (I Cor.12). Deus escolheu a via da fraqueza, do servo sofredor, para se revelar. Escolheu também pessoas com homoiopatês (Tg.5), termo esse para dizer que o grande profeta Elias era humano como cada um de nós, sujeito às mesmas paixões. E como foi modelado! E que experiências fantásticas ele teve!

Termino, portanto, essa reflexão lembrando que Deus a todos acolhe. O jargão que analisamos e que tem cara de passagem bíblica (tema desta mensagem), na verdade não se encontra na Bíblia (há não ser em Heresias 8:2-rsrsrs!). O fato é que muitos chegam pela dor, mas outros tantos pelo amor. Talvez o segundo grupo não esteja sendo devidamente reconhecido e visualizado. Na sua maior parte oriundo de filhos de crentes que viveram na Igreja desde cedo, seus testemunhos de uma vida que não experimentou o submundo espiritual não despertam muito interesse, numa cultura (inclusive evangélica) que valoriza o trágico, ao invés de celebrar o belo. É verdade então que alguns chegam pela dor sozinhos até Jesus, contudo também é verdade que muitos que estão sofrendo precisam de alguém que os ajude para chegar a Jesus. No entanto uma coisa me parece certa: na literatura bíblica, os grandes personagens, em sua esmagadora maioria, são aqueles que vieram pelo amor e que foram modelados pela dor.

Pr.Sergio Dusilek

sergio@igrejamarapendi.org.br

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maio 5, 2016

“O MELHOR DE DEUS ESTÁ POR VIR”

Filed under: Sem categoria — sdusilek @ 2:51 pm

O MELHOR DE DEUS ESTÁ POR VIR! – Uma discussão sobre a esperança cristã

(Romanos 5:1-5)

O que mantém uma pessoa viva mesmo estando num CTI e sabendo que irá se submeter a diversas cirurgias? É sua expectativa, sua esperança de poder retomar sua vida, de redimensionar aquilo que ficou do lado de fora do hospital, que faz com que ela não se entregue. Expectativa é um sentimento humano, que pode em excesso, desencadear uma ansiedade. No entanto esperança é uma palavra essencialmente cristã, pois está atrelada a Jesus. É o “turbinamento” da expectativa.

Esperança no grego é elpis, sendo que no seu uso na antiguidade clássica possuía a conotação de aguardar/esperar algo. Já no Velho Testamento, o conceito de esperança estava ligado a Deus por uma preposição. Nesse sentido, esperar podia ser em Deus, por Deus, com Deus… Só que é justamente no nascedouro do cristianismo que esperança se forma de modo substantivo, adquirindo contorno da expectativa por algo bom. Só em Paulo aparece, como verbo ou substantivo cerca de 55 vezes no Novo Testamento.

Mas… e como o conceito de esperança é recebido hoje? No nosso entender ele vem revestido pelo jargão que intitula essa mensagem e que costumeiramente é usado como “xarope do consolo”. A esperança cristã foi reduzida a um bem-estar que um dia chegará… Por isso que escolhemos 4 problemas causados por esse jargão:

  • O 1º Problema é Conduzir uma pessoa à nostalgia: é quando a melhor fase da vida ficou para trás

A gravidade disso é enterrar a esperança. Isso porque a historicidade de alguém pode desmentir repetidas vezes os contínuos presentes da vida de uma pessoa. Nesse sentido a esperança é substituída pela nostalgia. A pessoa passa a viver do passado e no passado, o que acaba: 1.1) impedindo que ela tenha uma atitude positiva em relação a vida; 1.2) deixe de viver e perceber as boas novidades e surpresas que podemos encontrar na vida; 1.3) deixe de se relacionar com novas pessoas e de desenvolver/aprofundar seu relacionamento com Deus. Não espera nada de bom, e quando algo legal acontece, não nota, nem dá valor, pois o passado será, nesses casos, sempre melhor.

Normalmente essa prisão nostálgica está associada a memórias de pessoas e/ou lugares marcantes que não existem mais. E como nada se compara ao que foi perdido, a nostalgia passa a reinar. Outro fator é quando a expectativa é frustrada incessantemente pela historicidade, a qual aponta para uma perpetuação do estado de dificuldade.

  • O segundo problema é que costumeiramente o melhor de Deus não é igual ao melhor que desejamos para nós.

Um mártir, alguém que morre por Cristo, em seu martírio deixou de experimentar o melhor de Deus para sua vida? Pode a morte ser o melhor de Deus para alguém? Perceba que aqui reside o existencial conflito entre o meu desejo e o desejo de Deus, entre o meu querer e o querer de Deus, entre meus planos e os divinos propósitos.

O jargão traz um ideário por traz, e nesse caso, ligado ao consumismo. Já a esperança traz consigo uma certeza: a de que estar com Jesus é sempre melhor. Por isso que por vezes o melhor de Deus pode ser o que aparentemente é o pior para nós, algo como “é melhor um final horrível do que um horror sem fim”. Não são os padrões deste mundo, seus valores, nem as aparências dele que julgam o que é melhor da parte de Deus para nós.

Se liga, por vezes o melhor de Deus é ser aquecido, mas não queimado, numa fornalha de fogo ardente (Dn.3); em outras vezes é dividir o hotel com os leões (Dn.6); em outras ocasiões é o andar manco ao invés da corrida sã (Gen.32:22ss). O melhor de Deus não se deixa enquadrar no nosso conceito do que é bom.

Ao usar o jargão, as pessoas tendem a desconsiderar o fato de que em Deus e com Deus, tudo pode melhorar piorando. Entende?

  • O 3º problema é o sentimento de abandono quando não se experimenta o melhor.

A questão nesses casos é: por que nada de bom acontece comigo? E sua culpabilização: onde falhei? Ou a culpabilização divina: Por que Deus só falha comigo? Enfim: pode a esperança falhar?

Na verdade há dois fatores que fazem com que a esperança “falhe” e então o fiel se sinta abandonado. O primeiro reside onde a esperança está calcada. O segundo na ambigüidade humana.

A esperança falha quase toda vez em que depositamos nossa confiança futura em pessoas, coisas, ideologias e não em Jesus. É o emprego prometido pelo “amigo”, a bolsa de estudos requerida pelo coordenador, a vaga disposta… a noiva que desiste do casório, ou a enfermidade que era para melhorar contudo não regride… e o sentimento de abandono chega.

A esperança por vezes falha antes desses acontecimentos externos. Falha lá dentro, na alma. É quando fraquejamos, quando tiramos o foco de Jesus, quando deixamos a vida terreal tomar um espaço maior que a vida eternal na nossa alma. Nessas horas, até o prometido rei Davi se sente abandonado por Deus (Sl.22), tanto que vai para os filisteus (I Sm.27). Nós fraquejaremos ao esperarmos, há não ser que façamos como disse Karl Barth, o alicerce de nossa esperança em Jesus Cristo, pois mesmo quando fraquejamos Ele não falha.

  • O quarto problema é a redução do papel de Jesus no uso desse jargão.

Ao identificar a esperança com conceitos culturais pós-modernos de bem estar, esse jargão sobre o qual estamos refletindo diminui a importância de Jesus. Jesus pode tornar algo insosso em algo extremamente saboroso (Joao 2)? Claro que sim. Contudo o conceito de esperança não está ligado essencialmente ao que Jesus pode fazer, mas a quem Ele é. Jesus é a razão e a essência da esperança cristã; justamente por isso, não pode ficar em segundo plano. Isso porque o Melhor de Deus já veio: JESUS.

Para você ter uma idéia, o Velho Testamento fala de uma esperança messiânica. No entanto, a literatura bíblica ao ser retomada no Novo Testamento pelos Evangelhos quase não fala de esperança. Para ser mais preciso aparece 1 vez em Mateus, 1 em João e 3 em Lucas. Por que razão? No nosso entendimento é porque a esperança é Jesus. Ora, uma vez que os apóstolos estavam com Ele, conviviam com Cristo, não havia razão para se falar em esperança. A esperança se torna, primeiramente então, na certeza cristã de um reencontro com Cristo, algo como a certeza da presença na ausência (Rm.5:5). Fruto de uma união indissolúvel com Cristo, que por estar vivo a torna tão viva quanto Ele (I Pe.1:3). Esperança que embora divina na sua concepção e humana na sua apropriação, é mundana na sua duração. Tanto a fé, quanto a esperança (I Cor.13:13) passarão, pois no céu de Deus não haverá necessidade delas. Só permanecerá o amor, sendo este um dos motivos pelos quais ele é maior do que os outros dois.

 

Concluímos essa breve reflexão recomendando a você que não use esse jargão como “xarope consolo”. Ao fazê-lo de modo indiscriminado você pode causar mais estragos (sentimentos nostálgicos e de abandono) do que trazer cura e real esperança para alguém. Não sabe o que dizer? Não diga nada; ou ainda ofereça o seu silêncio em forma de companhia à essa pessoa em dificuldade. No máximo, quem sabe, peça para ela se agarrar a Jesus, focar nEle para que a esperança brote naquele coração. Faça isso na certeza de que Jesus é o Melhor de Deus que veio para todos.

 Pr.Sergio Dusilek

sdusilek@gmail.com

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