Novos Caminhos, Velhos Trilhos

julho 25, 2016

PERDÃO

Filed under: Sem categoria — sdusilek @ 1:10 am

A mitologia, e a grega em especial, foi a primeira forma discursiva de elaboração do ser humano sobre os dramas humanos, existenciais. Num certo sentido, a mitologia se torna então não numa lenda fantasiosa, mas num primeiro grande esforço da linguagem, numa ação, por assim dizer, pré-científica (Mircea Eliade) (lembre-se que a Ciência nasce com a Filosofia Grega, a qual sucede, por assim dizer a fase mítica). Num resgate a partir do final do século XIX e do século XX, especialmente em Heidegger, o mito  passou a ser encarado como uma fonte também religiosa, o primeiro registro de uma relação/religiosidade pura, da  captação de uma revelação primeira (Giambattista Vico). Nesse sentido o mito não se encerra no seu texto, mas ele abriga outras possibilidades para além dele (Northrop Frye).

Por que falamos de Mitologia? Porque ao retratar o drama existencial humano encontramos na mitologia grega a estória de Níobe. Esposa do rei de Tebas, fecunda, deu a ele 14 filhos (7 filhos e 7 filhas). Como Anfion tinha outra esposa, mãe de Artemis (Diana) e Apolo, nessa rixa conjugal fruto de uma relação bígama, Níobe provocava Latona por conta de sua fecundidade (assim como a história de Leia e Raquel, com  Jacó; ou ainda de Ana e Penina com Elcana, ambas na Bíblia). Os dois filhos de Letona (Diana e Apolo) resolvem tomar as dores da mãe, e matam então, usando flechas, os 14 filhos de Níobe, a qual foi impedida de sepultar os filhos por nove dias. Sua dor, ela que fora a primeira a ser abusada por Zeus, foi tão profunda que se transformou num rochedo (ou ainda que Zeus a transformara naquilo que ela se tornara). E ao falar de Níobe, estamos retratando o drama do perdào nas relaçoes humanas.

Ao convidar voce para ler Lm.3:22-23, quero fazer uso de três figuras bíblicas, que emergem da Palavra, e que, numa aproximação lateral, ajudam a clarear o texto e a refundar o conceito de perdão. Falo das figuras: do Maná (Exodo 14); do Degelo do Monte Hermom (Sl.133) e do Divórcio – coração de pedra x coração de carne (Mt.19 e Ez.36). Perdão é o que recai sobre nós todas as manhãs da parte de Deus, pois ele é a própria transmissão da misericórdia, sendo esta compreendida por aquilo que Deus NÃO nos dá, conquanto seja do nosso merecimento receber.

A figura do Maná aponta para uma provisão divina. Para um renovo cada manha. Para aquilo que é dado por Deus em quantidade necessária para nosso dia-a-dia. O Maná era renovado a cada manhã. O que se quer aludir é que Deus nos dá uma quantidade diária de perdão suficiente para que façamos uso dele ao longo do nosso dia. Por isso que o sol não precisa se por sobre a nossa ira… Essa quantidade diária não pode, nem deve ser estocada. Na verdade, o perdão é o único FUNDO que quanto mais se usa, mais se saca, mais se tem. E é o próprio Senhor quem repõe a cada manhã.

Já a figura do degelo do Monte Hermom, que se localiza na parte mais ao norte da Palestina, aponta para o fluxo que precisa haver na nossa vida. Não existimos para reter, deter o fluxo. Existimos para dar vazão a ele. Em outras palavras, somos canais da Graça e não represas dela. Se Deus tem nos dado saúde, que nós a invistamos em ajudar o nosso próximo; se Deus tem nos dado recursos, que aprendamos a repartir e compartilhar; se Deus tem nos dado conhecimento, que transmitamos aos outros, passando ao largo da criação de uma pretensa reserva de mercado. No período do verão, o Hermom sofre o degelo e essa água desce abastecendo os rios e ribeirões da região, desembocando no Mar da Galileia. Deste mar/lago da Galileia/Genezaré, a água segue pelo Rio Jordão até desaguar no Mar Morto. O Mar que não se basta, que mantém o fluxo, possui vida. Aquele que rompe com o fluxo, o Mar Morto, acaba sem vida. Quem só recebe, ajunta e absorve, sem compartilhar acaba morrendo. Não foi essa a figura que Jesus usou ao falar da parábola do rico que só trabalhou para juntar e que num determinado momento da vida falou para si mesmo “Ó alma! Deita-te! Regala-te! Quantos bens você tem para seu desfrute!”. Jesus qualificou quem age assim como louco, e como alguém que seria visitado pela morte em breve. Não estamos aqui para represar o fluxo da vida, do Rio da Vida que corre do Trono de Deus. Ao degelar pessoas e relações hibernadas no frio pela falta de perdão, trazemos  vida à nossa volta. Irrigamos a terra seca das relações rompidas com perdão. Lembre-se do final do texto (já não mais parabólico) da parábola do credor incompassivo (Mateus 18), Jesus lembra de um fluxo: se não perdoarmos, nosso perdão será retido,  ou seja: sem perdoar não recebemos perdão.

A terceira e última figura que traz luz ao texto lido está na fala de Jesus sobre a “dureza dos corações” (Mt.19). Nem toda relação divorciada, que também não quer dizer que seja somente no casamento, mas igualmente no trabalho, vizinhança, entre amigos, o é  por conta da falta de perdão. Contudo me parece claro dizer que, senão em todas, pelo menos  normalmente o divórcio nas relações está ligado a falta de perdão. E é essa falta de perdão que endurece nosso coração e põe fim à relação. Torna nosso coração como de pedra. Ao passo que o perdão nos mantém com coração de carne, pois nos humaniza. Nos tornamos humanos ao pedirmos perdão a Deus; somos humanos ao perdoar os outros. Perceba que a lógica do perdão não envolve nem um reconhecimento formal do ofensor, pois no prisma cristão é sempre uma atitude e também sentimento a ser tomado e desfrutado pelo ofendido. Envolve não a partilha da razão, das justificativas, mas a distribuição do perdão. Perdão bíblico não é partilhar as responsabilidades ou mesmo compartilhar a culpa (veja Gen.3). É distribuir Graça. Porque aquilo que não pode ser reparado só pode ser consertado pela Graça. Fazemos isso com o perdão.

Termino esta reflexão com uma pergunta: quem precisa de perdão e de quem? Bom, nós precisamos de perdão. Quando falo nós estou abordando a categoria humana. Somos os humanos quem precisamos de perdão. Perdão de Deus, pelos nossos pecados, inclusive aqueles que cometemos sendo salvos; perdão para nós mesmos para que não desenvolvamos uma auto-punição que nos remeta a uma vida de sofrimento sem fim, de purgação, ainda que inconsciente; de perdão aos outros, pois é impossível conviver sem ofender e sem ser ofendido. A palavra de ordem é perdão. E assim como Deus se renova e renova a humanidade a cada manhã, que sejamos instrumentos de renovação também. Perdoe e seja perdoado.

Mas para você que está com o coração pesado e não consegue perdoar ainda alguém, sugiro:

1) que você ore pedindo e renovando a Deus seu desejo  de que Ele lhe ajude a perdoar;

2) que você olhe para seu ofensor a partir de você… ele é tão falho quanto você. Via de regra queremos a forca para o ofensor, desde que não sejamos nós os que ofendem. Reconhecer a própria humanidade e a do outro é um bom início para usufruir o fluxo do perdão;

3) se o ofensor e a ofensa não lhe motivam a perdoar, olhe para o exemplo de Jesus (Mt.18). Que o perdão de Cristo seja então a motivação para que você perdoe.

4) tome uma atitude de perdoar. Decida. E depois vigie seu pensamento para não dar vazão a nova alimentação. Aos poucos esse pensamento negativo da vingança vai sendo substituído;

5) lembre-se também de fatos e fatores bons relacionados ao ofensor. Isso também ajuda a relativizar a ofensa e, ao fazê-lo, se torna mais fácil perdoar.

6) se quiser e puder, converse com o ofensor, mas somente após o assunto estar resolvido em seu coração.

Que Deus lhe ajude a perdoar!

Pr.Sergio Dusilek

sdusilek@gmail.com

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julho 20, 2016

TENTE OUTRA VEZ

Filed under: Sem categoria — sdusilek @ 1:43 pm

Há poesias que gostaria de ter composto. Normalmente trazem uma leveza e um preenchimento de sentido para a vida. De igual modo as que me tocam, usualmente possuem um teor que chamaria de bíblico em sua mensagem.

No caso abaixo, a letra é do Raul Seixas. Frejat repaginou essa música há pouco tempo atrás.

Leia com calma. Rumine as estrofes. E se puder, leia ouvindo Frejat cantar.

TENTE OUTRA VEZ (Raul Seixas)

Veja!
Não diga que a canção
Está perdida
Tenha fé em Deus
Tenha fé na vida
Tente outra vez!

Beba! (Beba!)
Pois a água viva
Ainda tá na fonte
(Tente outra vez!)
Você tem dois pés
Para cruzar a ponte
Nada acabou!
Não! Não! Não!

Oh! Oh! Oh! Oh!
Tente!
Levante sua mão sedenta
E recomece a andar
Não pense
Que a cabeça aguenta
Se você parar
Não! Não! Não!
Não! Não! Não!

Há uma voz que canta
Uma voz que dança
Uma voz que gira
(Gira!)
Bailando no ar
Uh!

Queira! (Queira!)
Basta ser sincero
E desejar profundo
Você será capaz
De sacudir o mundo
Vai!
Tente outra vez!
Humrum!

Tente! (Tente!)
E não diga
Que a vitória está perdida
Se é de batalhas
Que se vive a vida
Han!
Tente outra vez!

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