Novos Caminhos, Velhos Trilhos

fevereiro 25, 2016

OS DESIGREJADOS

Filed under: Sem categoria — sdusilek @ 7:21 pm

Esse é o termo que recentemente vem sendo usado e exportado dos arraiais eclesiásticos e teológicos para o âmbito das Ciências Sociais e da Ciência da Religião. Ele caracteriza um sugestivo e crescente grupo censitário de evangélicos não praticantes, ou não alinhados à qualquer denominação evangélica. O que era impensado há quatro décadas atrás, agora virou objeto de estudo. Naquela época tinha-se o “desviado”, o “ex-comungado”, seja pela opção moral ou pela adoção daquilo que era tido como herético. Mesmo os menos compromissados, menos frequentes, se indignariam contra uma classificação como a que se apresenta agora.

Em relação ao movimento não há nada novo. Aliás dentro do cristianismo vale a máxima que “não há nada novo debaixo do sol”. Os fenômenos são rebatizados, renomeados, travestidos, mas permanecem com a mesma essência. Na época da Reforma, a ex-comunhão impingida pela Igreja Romana de certo modo desigrejou um grande grupo, que foi organizado em torno de outras confissões, surgindo o luteranismo, o calvinismo, o metodismo e também as igrejas com maior mobilidade porque isentas de uma hierarquia, como é o caso dos Batistas. Perceba que a crítica, o movimento antitético sempre existiu no seio do cristianismo e sua capacidade de preservação, em termos sociológicos, se deveu à capacidade de absorção da crítica, que conduzia a uma reformulação.

Nesse sentido, o movimento dos desigrejados é, por um lado, resultado de uma inconformidade com a estrutura e com a forma de ser igreja. Aliás, penso que de certa forma, parte do neopentecostalismo é o resultado crítico desse movimento ao se deparar com a então rigidez tradicional. Por outro lado ele é o lugar comum de um processo de descarte e abandono de crentes, notadamente pelos seguidores da teologia da prosperidade que não estão circunscritos aos arraiais classicamente tidos como neopentecostais. Estes formam, dentro dos desigrejados o grupo que Darci Dusilek chamou de “flagelados da fé” (DUSILEK, Darci. O Futuro da Igreja no 3o Milênio. Rio de Janeiro: Horizonal, 1997). Pessoas de bom coração, regeneradas, mas que sofreram todo tipo de abuso por parte de sua liderança, sendo desprezados, desperdiçados logo após o extenuante uso.

A maior característica dos desigrejados é a ausência de vínculo. Eles não pertencem a nenhum grupo religioso. Não se enxergam assim, e não permitem que sejam rotulados ou classificados com tal pertinência ou proximidade a um grupo. Se tornaram os novos “hebreus”, peregrinando sobre a terra sem organização ou liderança. Respeitam alguns líderes, mas não estão sujeitos a nenhum deles. Sua espiritualidade é vivida na dimensão pessoal, quando muito familiar, com Deus. Vez por outra fazem uma inserção num ambiente notadamente religioso, num culto. Podem relembrar  rever algumas relações, mas não as renovam para serem vividas nessa ambiência.

Perceba: a crítica e mais, o sofrimento que os atuais desigrejados passaram, são reais e pertinentes. Precisam ser acolhidas, pensadas, tratadas. Tudo em amor.

Ocorre que nesta semana tomei conhecimento, para minha surpresa, de líderes que tem arvorado para si a paternidade do termo. E mais do que isso: tem proposto uma forma de organização, de agrupamento dos desigrejados, sob a égide de que fora da Igreja é que está a correta doutrina. Fiquei pasmo ao notar que muitos tem participado de uma “igreja de desigrejados”, mas negando que o grupo é de fato uma igreja, simplesmente porque não leva essa expressão no seu nome (daí minha perplexidade). Ao mesmo tempo em que fazem uma crítica à religião instituída (que deve ser feita), não exercem a consciência crítica para perceber que ao se reunirem como desigrejados, simplesmente deixaram de sê-lo. Não notaram que a única diferença para uma igreja instituída, histórica, é que lhes falta o tempo (são recém-nascidos). Mas que se sobreviverem como “Igreja dos desigrejados” (com esse ou com qualquer outro nome), terão juntamente com o que espero ser uma linda história, uma pesada tradição… Ou seja, ocuparão o mesmo lugar daquilo que hoje é defenestrado por esses grupos (veja falo aqui em grupo e não em indivíduos).

De modo interessante, porém sem maior reflexão, defendem a noção de que as doutrinas corretas, puras, estão do lado de fora da igreja, ou na “novidade” dos desigrejados. Acusam as igrejas históricas de usarem “escamas”, manifestos nos corpos doutrinários que adotam. Esquecem-se que, de uma certa maneira, de pelo menos três coisas:

  1. que nenhuma doutrina será absolutamente nova no cristianismo. Ao descartar a formulação histórica, também terminam descartando o que pensam, ou o que crerão. Ou esses grupos vão descartar o conceito da Graça de Jesus (para ficar só num exemplo)?
  2. ao dizer que não aceitam as doutrinas das Igrejas e sim, por exemplo, o que Jesus disse, não percebem que acabaram de formular um rígido ponto doutrinário. No entendimento de Emil Brunner, não há como fugir da formulação doutrinária. Ela necessariamente seguirá e comporá a coluna vertebral de qualquer grupo religioso, ainda que receba um outro nome (BRUNNER, Emil. Teologia da Crise. São Paulo: Novo Século, 2004). Não há religião sem doutrina. Pode haver doutrina sem religião.
  3. pode ser que a doutrina no fundo seja uma “escama” ou uma “lente”, como preferir. Nesse caso, todas as religiões possuem suas escamas/lentes. Talvez o melhor seja combinar esses termos aqui. Em todas as religiões há doutrinas que nos ajudam a ver (lentes) e outras que nos atrapalham a enxergar (escamas). Contudo, todas elas são em alguma dimensão resultado da percepção humana (SCHLEIERMACHER), o que nos torna precavidos contra demasiados purismos.

Por fim destaco que a religião não só possui malefícios em sua corporificação social. Ela também possui muitos benefícios. Até aquela mais rígida comunidade de fé traz benefícios para aqueles que se reúnem ali. Não é à toa que Alain Botton propôs numa obra homônima “Uma religião para os ateus”, na qual defende o ajuntamento, mas sem Deus, enquanto o desigrejado “clássico” (perdoem-me!) postula justamente o contrário: Deus sem ajuntamento.

De modo algum desrespeito qualquer desigrejado. Penso que quem se deu por uma igreja e acabou decepcionado merece toda a atenção e cuidado. De certo modo eu mais ou menos sei o que você desigrejado pelo formalismo excessivo ou pelo abuso de uma liderança, passou (e sei por dentro). Daí minha empatia por você. No entanto convido você a lembrar do amor que Cristo tem pela Igreja (Ef.5:25b), na missão do Espírito, e em todo potencial de serviço para Deus que você tem e que pode também ser usado dentro de uma comunidade de fé.

Sua salvação não depende de uma filiação. Depende da fé na Graça de Deus. Mesmo que você nunca mais pise numa Igreja, será reunido comigo e com todos os demais em todos os tempos na eternidade. Se não pudermos desfrutar da convivência aqui, certamente teremos “muito tempo” para aproveitar lá.

Só uma coisa que é difícil de aceitar. Líderes se apropriando do termo e se propondo a ajuntar os desigrejados numa nova igreja que não tem nome de igreja. Numa igreja que fala diferente o nome igreja. Lembre-se que o que você busca, assim como eu, e onde reside o cerne da crítica, é numa forma livre, espontânea, acolhedora e amorosa de ser igreja. O que todos queremos é o sonho de Igreja de Jesus.

Com carinho,

Pr.Sergio Dusilek

[Quero aqui sugerir três livros que ajudarão a você entender melhor o pensamento por trás deste fenômeno:

  1. Por que voce não quer mais ir à Igreja?
  2. Quem precisa de Deus? (Harold Kushnner)
  3. Alma Sobrevivente: Sou cristão apesar da Igreja (Phillip Yancey)

fevereiro 19, 2016

DEUS NÃO ESTÁ MAIS AQUI!

Filed under: Sem categoria — sdusilek @ 4:01 pm

DEUS NÃO ESTÁ MAIS AQUI

Não fique bravo comigo pois essa palavra não é minha. Ela está na Bíblia e foi proferida pela viúva de Finéias enquanto agonizava (I Sm.5:19-21). Sua compreensão, como a do povo, era de um Deus encaixotado, que restringia sua Glória, Sua presença à uma arca. Sendo assim, ao colocarem Deus no meio de uma guerra particular (4:1), sem que O trouxessem para a singularidade de sua vida, Israel deixou que o Senhor “fosse embora”.

Longe de questionar a Onipresença (seja ela econômica ou não) do Senhor, essa narrativa me faz pensar na formação dos filhos, até mesmo porque o texto (I Sm.1-5) tem essa tônica como pano de fundo. De um lado uma jovem senhora temente a Deus e que ensina seu pequenino Samuel a amar o Senhor. De outro um experiente sacerdote (Eli) que tem dois filhos complicados. É os filhos de pastores problemáticos não são fruto do século XX. Eles já existiam na Bíblia (até os de Samuel eram assim I Sm.8:5), só que nos dias atuais, dos que são problemáticos muitos o são por conta da própria crueldade da igreja.

Fato é que a Bíblia chama os filhos de Eli (Hofni e Finéias) de filhos de Belial (2:12), gente ímpia, que não conhecia o Senhor, embora fossem sacerdotes em Seu nome. De fato os legítimos pastores jamais serão os que os homens ou alguma linhagem étnica fizeram; os legítimos assim foram feitos pelo coração, num cumprimento ao chamamento divino. Por conta da interferência nefasta de gente como Hofni e Finéias, Deus que já não estava presente na vida do povo agora tinha ido embora de vez. E eles eram filhos do sacerdote…

Isso me faz pensar nos lares das pessoas, muitas das quais assíduas na Igreja. Por que estes lares que tinham a presença de Deus tão palpável hoje o percebem tão rarefeito? Por que Deus não está mais aqui? O que leva uma mãe a dizer com agonia, Icabô (I Sm.5:21)? É olhando para Hofni e Finéias que vamos pensar em alguns elementos que contribuem para isso.

1) Eles não se importavam com o Senhor (2:12; 3:13; 4:15);

Na vida daqueles dois não havia qualquer constrangimento ou mesmo consciência da presença de Deus. Viviam como se Deus não existisse, apesar de fazer uso dEle. Mas por que ninguém os impediu? Na verdade a cegueira de Eli veio antes da idade. Ao não ver (ou não querer ver) o comportamento dos filhos a ponto de não repreendê-los, Eli assume uma postura de cegueira.

A consequência? É que quando a liderança é perniciosa, os valores de Deus são desprezados. O povo passou a desprezar a oferta do Senhor (2:17) por pura ausência de referenciais. As pessoas passam a não se importar com Deus.

  • SEJA VOCÊ PAI A REPREENDER O SEU FILHO, QUANDO PRECISAR. NÃO SEJA CEGO, NEM SE FAÇA DE CEGO.

2) Eles introduzem elementos estranhos (2:13)

É no mínimo simbólico que eles tenham usado para subtrair a oferta do Senhor um garfo de 3 dentes, instrumental este normalmente atribuído ao Diabo. Aqueles dois tinham instituído o desconto de Imposto de Renda na fonte para Deus. Normalmente quando um líder faz isso implica numa melhora pessoal do líder religioso em detrimento da saúde espiritual do resto da comunidade. Mas o fato que queremos destacar aqui é que filhos criados no tabernáculo introduziram elementos estranhos ao culto.

Esses elementos podem ser desde uma compreensão não bíblica sobre Deus, até mesmo a adesão a outros rituais religiosos ou mesmo a importância maior dada à outras coisas. Exemplo disso podem ser os estudos, a carreira estudantil como algo maior do que Deus.

 

3) Eles se valem da religião para levar pessoas ao erro (2:22).

Quantos exemplos assim existem? Lembro-me da experiência relatada pelo Pr.Caio Fábio num livreto de sua autoria sobre namoro que falava da indução ao erro de uma liderança de uma determinada igreja. O texto diz que Eli sabia que seus filhos eram adúlteros e que usavam da posição religiosa para terem sucesso nos voos extraconjugais.

O que isso reflete? Suas escolhas e decisões eram as piores possíveis. Em nenhum momento eles levavam Deus em consideração. Deus nem na balança era colocado (possivelmente porque soubessem para que lado ela penderia, lado este que eles não queriam atentar).

 

4) Eles são pretensiosos (2:16, 23-25);

Não ouvem os avisos do Senhor. E Deus estava dizendo a eles que aquela trilha não era de vida e sim de morte! Quantas vezes pessoas não se deixam orientar? Isso é pretensão. Maturidade é outra coisa.

 

5) Por fim eles transformam Deus num amuleto (4:1, 3-5)

Não tem vida com Deus mas na hora de inventar e entrar numa guerra até lembra de Ebenézer (4:1) – até aqui nos ajudou o Senhor. Faz acampamento pensando em Deus porque sabe que a luta vai ser renhida.

Para completar invocam a presença de Deus nas lutas para as quais Ele não foi consultado. Acham que algo que simboliza sua presença, colocado no meio da luta vai trazer algum resultado benéfico. Guarde uma coisa: Deus não se deixa apequenar, não se deixa ser transformado num amuleto.

  • QUEM TRANSFORMA DEUS EM AMULETO É QUEM SÓ LEMBRA DELE NA HORA DO APERTO. ESSE É O SEU CASO?

Deus quer relacionamento e não acionamento. Ora um Deus que é só amuleto já não está na vida de uma família, de um povo há muito tempo.

FINALIZO dizendo:

  1. A) que TEMOR se ensina as crianças (Dt.6). E isso fazemos pelo exemplo de comportamento com nossa vida. Também fazemos ao ensinar as crianças a amarem as obras de Deus e as identificarem como sendo dEle. Por fim, o temor e a importância do Senhor é passada para outra geração pelas narrativas bíblicas, pelas histórias da Bíblia.
  2. B) Temor também se ensina pela convivência com a Igreja. A Igreja é um valor para Deus (Ef.5:25). Deveria ser para todos nós também. Se não for para você, dificilmente o será para seu filho.

Infelizmente há pais que não discernem a precariedade dos filhos (eles estão em formação). Alguns acham que já não precisam mais da Igreja. Esquecem-se de duas coisas: b1) primeiro que nesse caso a igreja pode muito precisar de alguém tão gabaritado como você; b2) segundo que as crianças não fazem o movimento de trás para frente, pois estão começando. Nesse sentido pai/mãe, você mesmo que não quer e não precisa mais ir à igreja: se não fosse ela lá atrás, você estaria onde está hoje?

C) por fim quero fazer um paralelo não mencionado no texto, mas inferido entre os capítulos 1-5 de Samuel. Esse texto não é só uma amostra de que Deus rompe com linhagens sacerdotais para restaurar a devoção confiando a liderança espiritual de um povo a um novo sacerdote, chamando alguém de fora, como foi o caso de Samuel. Ele é também um apontamento de uma grande verdade: a de que Ana desejava muito ter um filho e que talvez a mulher de Eli (omissa em todo texto) talvez não tivesse a mesma vontade, o que explicaria em parte a aberração na qual seus dois filhos se tornaram. Fica a lição: se não quer ter filhos, NÃO os tenha. Se não quer dar tempo (ainda que pouco devido a rotina de trabalho) à prole, se quer viver como se eles não existissem, não os tenha. Caso contrário correrão sério risco de se tornarem filhos de Belial também.

 

fevereiro 3, 2016

O AMOR NÃO É PROPRIEDADE

Filed under: Sem categoria — sdusilek @ 11:04 am

Certas coisas não podem dar certo. Um psicólogo que não gosta de pessoas, muito menos tem paciência para ouvi-las dificilmente fará uma boa clínica. Um jovem que deseja ser cirurgião mas que desmaia toda vez que vê sangue, dificilmente conseguirá ser um bom cirurgião. Um administrador que não consiga organizar e planejar as coisas, do mesmo jeito tem tudo para dar errado na Administração.

Assim também o é com quem não sabe amar, nem experimentou o amor. Uma pessoa assim ao falar sobre o amor acaba se traindo nas palavras e dizendo exatamente o que não é o amor. Ao restringi-lo, classificá-lo, enquadrá-lo o amor deixa de ser amor, mesmo que numa abordagem conceitual.

O amor não é uma propriedade religiosa ou mesmo confessional. Nem tampouco restrito a uma relação, algo como se só aquele namoro ou casamento detivesse o que é o amor, como se só aquelas partes pudessem falar do amor. Não! O amor não está sujeito ao domínio de qualquer coisa ou pessoa. Se numa relação, num discurso, num ritual religioso (ainda que num culto) o domínio entrar por uma porta, o amor sai pela outra. Amor e poder só coadunam e coabitam quando é o poder para o outro, quando é doação, quando o poder se deixa diluir pelo Amor.

Por isso que amor não é propriedade religiosa. Dizer que uma pessoa só pode ver o amor pela perspectiva de um grupo religioso ou mesmo pelo viés de um texto sagrado (ainda que seja a Bíblia), é deformar o amor. Possivelmente quem assim o faz tenha também algum tipo de deformação. Mas não se pode reduzi-lo a um texto, ainda que considerado sagrado, mesmo considerando que a Bíblia tenha o maior registro de amor, que é o de Deus por nós revelado na vida e obra de Jesus Cristo. Até mesmo porque a própria Bíblia mostra que o amor faz parte da natureza divina e que é um dos valores do Reino de Deus. Em assim sendo, o amor é “inaprisionável”.

O amor não é propriedade. Nem pode ser. Quem assim o faz o deturpa. Quem assim o compra acaba compreendendo algo que não é o amor. Isso porque o amor não se sujeita a ser um mero objeto, algo que na relação de conhecimento está ali, sobre a mesa para simplesmente ser depurado, dissecado. O amor antes estaria mais para uma Supernova, para algo que por mais que olhemos, entendamos, há sempre uma faceta, um lado que ainda não observamos. Ele é maior que nossa observação, que nossa capacidade de apreensão. Por isso, volto a dizer, ele não pode ser propriedade de uma confissão, de um texto ou de uma relação.

Ao dizer que amamos identificamos algo que, mesmo sem entender, experimentamos, sentimos. Contudo não sabemos quando ou mesmo porque ele começou. Sabemos, isso sim, que está lá. E pronto. Misterioso porém doce; Denso, porém leve; Profundo mas que nos faz flutuar; vida que nos faz gostar de viver. Não sendo o amor propriedade, deve ele ser prioridade.

Pr.Sergio Dusilek

Sdusilek@gmail.com

fevereiro 2, 2016

Você é realmente livre?

Filed under: Sem categoria — sdusilek @ 4:08 pm

O que é a liberdade? Somos de fatos livres? Estas perguntas normalmente são respondidas pelo senso comum. Nesse sentido, liberdade é tida como o direito de se fazer o que quiser e costuma-se encarar, por exemplo como um país livre. Nada tão fora do prumo quanto o senso comum (o mesmo que diz que a voz do povo é a voz de Deus). De trás para frente: não, o Brasil não foi um país livre e agora com a globalização me parece que não há mais essa categoria de nação livre. Nem tampouco você pode fazer o que quiser. Mesmo a liberdade sendo tida como um direito inalienável do indivíduo (LOCKE), ela é vivida sob uma tensão, que no caso de um Estado Democrático de Direito pode ser vista pelas suas leis. Daí o Contrato Social, que é menos mal do que “o homem como lobo do próprio homem” de Thomas Hobbes em “O Leviatã”.

Essa dificuldade também se mostra no campo da experiência religiosa, na relação com Deus. O mesmo Paulo que diz que fomos tirados de uma escravidão e que no Evangelho não há escravidão (Gl.3:28), da morte até (Ef.2:1-4) é o mesmo que se qualifica como escravo de Cristo (Fil.1:1; I Cor.9:27), de um escravo de um ideal maior (I Cor.9:19). Soma-se a isso a dificuldade histórica com a introdução de um moralismo no meio cristão que distorceu a liberdade cristã, tanto na sua observância quanto na discordância. O que seria então a liberdade, e a liberdade cristã?
1) A Liberdade é decorrente da conversão (Gal.5:1a e 13a)
Fomos chamados à liberdade. Isso implica:
a) numa não sujeição as artimanhas religiosas: oferecimento de cursos de jejum (dukan de Jesus), de dom de línguas (“Yázigi espiritual”), regras de vestimenta. No caso de Paulo a luta era com os judaizantes que queriam impor regras para agradar a Deus. Não se torne escravos de homens ou mulheres que tentam agregar elementos a fé (normalmente com interesse pecuniário) mas que nada tem a ver com o Evangelho.
b) que podemos dizer “não” ao pecado. Uma pessoa moralmente boa pode dizer não ao pecado, à sua fraqueza (concupiscência) que leva ao pecado de estimação? Não. O crente pode dizer não? Em tese sim, porque nele está o Espírito. Mas ele nem sempre conseguirá (Rom.7). Eu arriscaria dizer que na maioria das vezes não conseguirá. Contudo nele reside a possibilidade e mais, a tensão, o conflito para que não erre na escolha.
2) A Liberdade cristã traz apego ao Espirito e não à carne. (Gl.5:13)
Deus não nos libertou para que tornemos a nos escravizar. E a escravidão espiritual é quando colocamos o que Deus nos deu abaixo do que queremos fazer. A liberdade cristã é um convite a ver a vida pelo prisma daquilo que nos outorgou sentido. É por isso que mesmo todas as coisas sendo lícitas, nem todas convém (I Cor.10:23). Há associações (quando nos juntamos a algo) e ações que não nos edificarão.
3) A Liberdade cristã traz um convite a responsabilidade.
Fomos libertos para que afinal? Para testemunhar dessa liberdade. Mas como damos testemunho dessa liberdade, é fazendo o que todo mundo faz? Não. Por vezes o maior atestado de liberdade vai ser sinalizar uma direção contrária a todos.
Temos uma responsabilidade com aqueles que não são crentes (ainda). Temos uma responsabilidade com aqueles que são novos crentes (Rm.14). Há coisas que posso fazer pois a Bíblia não condena. Mas ao trair a consciência de um “pequenino da fé” naquele momento eu me torno condenável, pois amei mais a mim mesmo do que ao meu próximo.
Ao vivermos a nossa liberdade lembremos que ela é instrumento de auferimento da santificação. Sim, a santidade só se torna possível e plausível por causa da liberdade. É quando Jesus se torna maior em nós que usamos da nossa liberdade para andar no Espírito (Gl.5:25; Rm.8:5, 8,11). E sem o uso da liberdade para agradar a Deus (Rm.8:8; I Tess.4:1), e com isso produzir o SIM de Deus e para Deus em nós (que é a santidade), o que nos sobra do religioso é a comunhão. Porém, DEFINITIVAMENTE, não estamos aqui só para isso. Sendo assim, lhe convido:
a) a parar de chamar de normal o que não é normal;
b) a parar de querer ser o relações públicas do divino, dizendo que tudo tá certo. O correto não precisa de acomodação. Ele se acomoda por si, com o seu próprio peso.
c) a parar de dar ocasião a carne e a viver no Espírito. O Caminho do Espírito é vida e paz.
d) a jamais optar por algo que não seja pela fé, pois tudo que “não provém da fé, é pecado” (Rm.14;23b).
Use o carnaval para descansar, para dar testemunho, para ter comunhão com sua família. Mas não use esse período para dar lugar à carne (aos valores do mundo, ao pecado).

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