Novos Caminhos, Velhos Trilhos

dezembro 12, 2012

A FÉ DAQUELES QUE O MUNDO NÃO ERA DIGNO (HEB.11.38)

Filed under: Estudos,Teologia — sdusilek @ 8:44 pm

A FÉ DAQUELES QUE O MUNDO NÃO ERA DIGNO (HEB.11.38)

Ou ainda: Quando os Mortos Falam

É possível a um morto falar? Não estou falando nem entrando no mérito de encontros espíritas. A Bíblia é muito clara a esse respeito. Mas, por exemplo: já passou por alguma experiência de vida na qual você lembrou claramente do exemplo, da fala, do olhar de alguém que já foi para a eternidade?

Há pessoas que marcaram o mundo pela sua genialidade. Falamos até hoje de Sócrates, Platão, Aristóteles, Kant, Hegel. Há outros que marcaram gerações pelo engajamento. Como não recordar de Martin Luther King Jr., Gandhi, Mandela, Madre Tereza de Calcutá? Outros pela coerência de vida como Bonhoefer, John Huss.[1] O comum a todos estes: eles transcenderam a mesmice. Viveram suas vidas de modo abnegado. Serviram a ideais e aos seus semelhantes.

Mas falta a lista daqueles que marcaram pela fé. Que foram o ponto de tangência entre o Eterno, a realidade supra-sensível e este mundo terreal. De tantos possíveis exemplos, vamos ficar com o de Abel.

1)    QUEM ERA ABEL (Gen.4:1-15; I João 3:12; Mt.23:35; Heb.12:24)

Abel é apresentado como o segundo filho entre Adão e Eva. Interessante no entanto é que ao longo das páginas sagradas há mais citações de Abel do que onde ele primeiramente aparece (Gen.4). Sua vida foi resumida a um culto. Mas esse ato de adoração disse tanto a respeito dele e de Deus que até hoje falamos nele, mesmo sendo ele de uma época em que não havia papel, nem arquivo (diferente de Sócrates). Abel se tornou uma vida que fala depois de morta.

Ele era pastor de ovelhas. Suas obras eram boas, não por conta do tipo de sacrifício que ele fez, mas pelo coração com que ofertou. Não foi o preço em si, mas o valor que ele deu aquele ato de culto. Esse valor fica patente quando percebemos que Abel não só traz uma “excelente oferta”, mas também quando percebemos seu cuidado e preparo para esse momento mostrado no fato de separar “as primícias”.

Era um cara de paz. O irmão com semblante transtornado o chama. Ele vendo isso vai encontrá-lo. E ouso dizer que não ofereceu reação. Foi como ovelha para o matadouro, assim como aconteceu com o Cordeiro que ele sacrificara.

2)    VIDAS DAS QUAIS O MUNDO NÃO É DIGNO SÃO AQUELAS QUE A MORTE NÃO AS CONSEGUE CALAR. (Heb.11:38,4; Gen.4:10)

São vidas que por mais ou menos tempo que vivam deixam um lastro e um rastro.

O rastro que Abel deixou, as pegadas que formaram um caminho estão ligadas a sua compreensão da natureza humana e a sua percepção sobre Deus. Certamente que Abel (Deus sim, Abel não) não tinha ciência ali que o cordeiro seria a figura bíblica para apontar e simbolizar o sacrifício perfeito (Heb.10) de Jesus. Aquele que anularia a necessidade de QUALQUER outro.

Mas fato é que Abel teve a compreensão da seriedade do pecado, de sua interposição na relação com Deus e que uma vida inocente teria de fazer a expiação. Algo tem que ficar entre nós e Deus. Precisamos de uma mediação, papel esse que Cristo irá personificar de uma vez por todas (I Tm.2:5; Heb.12:24). Nesse sentido, antes de qualquer fala explícita sobre a Graça, Abel aponta para ela, assumindo-se naquele altar como pecador e contando com o perdão de Deus.

Essa adoração se tornou um paradigma, um modelo. Sem música. Sem som. Contudo reverberando até a presente data. Quando adoramos com consciência de que é pela Graça, Deus nos percebe e “vem em nossa direção”. O autor de Hebreus no final do capítulo doze vai falar (devido a sua compreensão judaica de Deus) de irmos até o “monte santo”. Mas Abel é uma prova de que o Senhor vem ao nosso encontro. Isso porque fé é o entendimento de que Deus está perto e não longe.

Enquanto Caim vai pelas suas más obras (I Jo.3:12; Mt.23:35), confiando em seu esforço, Abel reconhece sua precariedade e sua falência espiritual e moral. Quem não crê na necessidade do sangue, acaba derramando de alguém. Abel foi por isso, justificado. E esse foi seu lastro, sua herança: a possibilidade da justificação.

3)    VIDAS DAS QUAIS O MUNDO NÃO É DIGNO SÃO VIDAS QUE SÃO MAIORES DO QUE A MORTE.

Vidas que são maiores do que a morte são vidas do tamanho da VIDA. Viver não é pouca coisa. É algo tão bom que até Jesus agonizou pela vida (Mt.26). Todos os grandes e bons personagens da História da Humanidade tiveram em comum um apego a vida. São vidas que valeram a pena serem vividas. Eram significantes e por isso seu significado ficou impresso na memória da Humanidade. Foram vidas que parece que faltou o “aviso” de que acabou. Elas “insistem em continuar”, através da sua obra, do seu testemunho. Penso aqui agora por exemplo (e buscando uma proximidade maior) em gente como meu falecido pai, Pr.Mauro Israel, Pr.Xavier, entre outros.

Vidas que são maiores do que a morte são vidas que pela fé e por causa da fé, morreram para um modelo ensimesmado de viver (Mt.16:25). São vidas que se perderam e foram achadas. Erasmo de Roterdã (Elogio da Loucura) falava da cruz como símbolo maior desse desapego ao mundo. A cruz é o atestado da indignidade, na perspectiva humana. Já na divina, a cruz de Jesus foi o atestado da Sua dignidade. Ele só foi para Cruz porque era DIGNO. Abel foi um sangue inocente derramado sobre a Terra pelo seu irmão. Jesus foi o JUSTO de Deus que, sendo inocente, foi morto pelos “seus irmãos judeus”[2]. O que não dizer do testemunho apostólico e primitivo sobre Dorcas (At.10:38-42)? Há uma interessante ligação entre aproveitar a vida e ir para o ralo da História e ser aproveitado pela vida e partir para os anais da mesma.

Vidas que são maiores que a morte são vidas que apontam para a existência de uma realidade ulterior. Como explicar racionalmente que exista gente que excedeu seu tempo, sua geração, há não ser reafirmando pela fé que a vida não se resume a materialidade? Vidas maiores que a morte mostram que a existência não pode ser só matéria (circunscrita a ela). E aí chegamos no primado da fé: a dignidade daqueles que esperam, almejam, visualizam o céu de Deus (Heb.11:13-16). Há uma dignidade na ressurreição!

Vidas maiores que a morte são vidas que por causa da fé, ainda VIVEM! Mas agora na eternidade com Jesus Cristo!

O que esperar da vida? Doe-se. Faça valer a pena. E saiba que seu rastro se transforma a cada dia em lastro para minha alma.

IGREJA BATISTA MARAPENDI

Av.Paisagista José Silva de Azevedo Neto 200 – O2 Corporate /// Cultos aos domingos 11.00hs  e 19.30hs – Centro de Convenções do O2


[1] Logicamente que há os espertos… aqueles que estão do lado da pessoa “certa”, na hora exata. Quem seria Sarney se não estivesse ladeando Tancredo? E o que não dizer de Melanchton com Lutero, Dilma, Haddad, Lindenbergh com Lula? Eduardo Paes com Cabral?

[2] Não estou aqui entrando na discussão infrutífera (ao meu ver) de quem matou Cristo, mesmo porque penso que a morte de Jesus se deu por um algoz imaterial – o pecado. Nesse sentido, a assembléia que decidiu foi entre os judeus, a execução foi romana, porém a responsabilidade foi e é de todos os seres humanos em todas as eras.

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dezembro 11, 2012

Moisés: A fé que vence o medo (Heb.11:23-29)

Filed under: Estudos,Teologia — sdusilek @ 3:04 pm

Aquele que não possui qualquer tipo de medo que seja o primeiro a levantar a mão! Medo faz parte da vida. É com o medo que as seguradoras trabalham. Elas afirmam, “vai que…” “é melhor ter”. Qual é o seu medo? Diz a psicanálise que todo ser humano tem pelo menos uma fobia. Eu confesso: a minha chama-se acrofobia. E a sua?

Moisés nasceu num contexto dominado pelo medo. Se você pensa que nascer na miséria africana é um infortúnio, imagina o que foi vir ao mundo com a sentença de morte decretada. Assim como ocorreu com Jesus, Moisés sobreviveu a um infanticídio. Ele foi um exemplo vivo de que com a fé podemos vencer o medo, sair do estado de estagnação, partir para dentro de novos e maiores desafios.

1)A fé vence o medo da violência (v.23): a Palavra diz que Moisés era formoso (asteios), lindo, tinha algo diferente na sua cara. A fé que ele viveu foi a que aprendeu dos seus pais (Anrão e Joquebede). Fé que desafia as decisões de Faraó. E isso mostra o quanto uma família pode fazer por um filho… A fé que vence o medo transforma cemitérios em condutos de vida. Se no Nilo os infantes eram afogados, foi pelo rio que Moisés foi salvo. Ele calmamente flutuou pelas águas da morte. E aqui destaca-se a presença da racionalidade na fé. Um cesto foi feito. Foi por um cesto que Paulo foi salvo. Sempre haverá um cesto!!!

2) A fé vence o medo da desinstalação (v.24): já mudou de emprego, de endereço (cidade)? De igreja? Os hábitos da vida trazem um ar de segurança para nós. Por isso costumamos fazer tudo para não mudar. Moisés estava bem instalado: vivia na melhor corte e no maior palácio do seu tempo. Seu futuro, como filho adotado da filha de Faraó (Bítia/Termutis) era promissor. Mas ele se recusa a permanecer ali, antes optando por ser maltratado (synkakoucheistai). Moisés aqui novamente se assemelha a Jesus: enquanto ele renunciou a glória terrena por causa do povo, Cristo renunciou a glória do céu por causa da humanidade. Isso porquê:

2.1-um coração cheio de fé se torna ardente por justiça. Impérios são construídos sobre a injustiça. O Reino de Deus é sobre a JUSTIÇA. 2.2-o coração cheio de fé é tomado por um sentido de missão. Só diz não ao Egito quem sabe o porquê de estar aqui;  2.3-o coração cheio de fé coloca os valores espirituais acima dos materiais. Fé implica em valores altos, elevados (Is.55), que ocasiona escolhas elevadas rejeitando ora pecado, ora facilidades;

3) A fé vence o medo do desconhecido (v.27) – Moisés foi para o deserto de Midiã. Caminhar para o deserto é para quem diz que Deus tem o controle sobre sua vida. A fé que vence o desconhecido é a que nos leva para o desconhecido. E sabemos que o “desconhecido” é mais forte do que tudo que conhecemos (ira de Faraó-v.27)

4) A fé vence o medo da rejeição/solidão – já foi rejeitado? Solidão é passar pelo deserto sem Deus. E isso Moisés disse que não aceitava (Ex.33). Rejeição é o que ele achava que o esperava na volta para o Egito, 40 anos depois (Ex.4). A fé concede um discernimento tão grande da parceria com Deus, que isso se traduz em presença contínua e aceitação do Alto! Quando vencemos o medo? Quando olhamos somente para uma direção, a do Alto; quando o único olhar que cruza com o nosso é o dEle; quando nada mais rouba a nossa atenção; quando ficamos parados/”hipnotizados” contemplando a beleza do Senhor; aí venceremos o medo. Afinal, quem tem esse Pai, o que pode temer? (Rm.8:31-39)

 

[Pr.Sergio Dusilek]

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