Novos Caminhos, Velhos Trilhos

setembro 17, 2017

OS BATISTAS E O SANTANDER

Filed under: Sem categoria — sdusilek @ 9:34 am

Sou contra o Santander. Embora nunca tenha tido qualquer tipo de conta nesse banco, duas pessoas da minha família têm/tiveram e as reclamações são inúmeras. Na nossa família há até uma jocosa brincadeira que faz alusão ao logo do Santander: parece o desenho de fezes com o cheirinho subindo… Daí mais uma constatação: se já na entrada o mau cheiro é dado pela logo, como esperar algo de diferente na relação com a instituição?

Mas veja: não sou contra o Santander por conta do seu patrocínio a diferentes iniciativas culturais e esportivas. Não sou contra um banco porque ele apoia um tipo de exposição artística. Jamais faria de uma exposição de arte um cavalo de batalha. Isso porque a exposição se restringe, por definição, a um lugar, a uma galeria, a um “vernissage”. Ou seja: vê, vai e volta quem quer. Segundo porque, sabedor do conteúdo da mostra, do artista ou artistas que expoem ali, posso então escolher visitar tal exposição ou simplesmente desconsiderá-la. Posso também visitá-la e não gostar do que vi, do “belo” ali retratado, e simplesmente não recomendá-la a ninguém. Agora daí fazer boicote…

E aqui entro com o tema dos Batistas que estão entre os que elegeram e ajudaram a incensar uma exposição de 10a categoria (pelo que me parece) à primeira grandeza da mostra das artes nesse país. Ao produzir documentos, como o da Ordem dos Pastores Batistas do Brasil, onde ou o conhecimento da arte literária era desconhecido, ou simplesmente foi desprezado, os Batistas cometem dois erros crassos: interferem na liberdade individual e no gosto estético de cada indivíduo; promovem aquilo que eles procuram condenar. Sim, muita gente que nem sabia da exposição dentro da “cerca” batista agora tomou conhecimento da mesma…

É  histórica a dificuldade que os Batistas têm de lidar com a arte. Representantes da Reforma Radical e integrantes do movimento iconoclasta, os Batistas sempre manifestaram sua dificuldade com a representação artística em tela ou escultura. Acostumaram a aceitar somente a literária e a representação musical.  Seu medo daquilo que eles pensam ser idolatria fizeram com que fossem desconsideradas obras de arte. Esta é uma das razões porque os batistas preferem visitar a palestina (atrás dos vestígios de Jesus) e não a Capela Sistina ou mesmo o Louvre em Paris (que por sinal são bem mais interessantes).

Sabedores desta dificuldade, os Batistas deveríamos ter redobrado cuidado ao pensar em produzir qualquer tipo de documento que vá na direção de criticar uma obra de arte, uma exposição e um Banco pelo seu ato mecênico. Deveria ter cuidado também em lembrar que não poucos membros de igrejas batistas trabalham no Santander. Imagine se este banco resolve retaliar agora, e manda embora aqueles que são membros de igreja batistas? Ah! Não me fale de ação judicial para reparar isso. O banco olha no facebook de quem ele quer e, em nome de uma reengenharia, enxuga o quadro…

Os Batistas precisam aprender com Kant, na sua Crítica da Faculdade do Juízo:

O juízo chama-se estético também precisamente porque o seu fundamento de determinação não é nenhum conceito, e sim o sentimento (do sentido interno) daquela unanimidade no jogo das faculdades do ânimo, na medida em que ela pode ser somente sentida. (p.170).
Em uma palavra, a ideia estética é uma representação da faculdade da imaginação associada a um conceito dado, a qual se liga a uma tal multiplicidade de representações parciais no uso livre das mesmas, que não se pode encontrar para ela nenhuma expressão que denote um conceito determinado, a qual, portanto, permite pensar de um conceito muita coisa inexprimível, cujo sentimento vivifica as faculdades de conhecimento, e à linguagem, enquanto simples letra, insufla espírito. Portanto, as faculdades do ânimo, cuja reunião (em certas relações) constitui o gênio, são as da imaginação e do entendimento.” (Id., p.174)
(…) o gênio consiste na feliz disposição, que nenhuma ciência pode ensinar e nenhum estudo pode exercitar, de encontrar ideias para um conceito dado e, por outro lado, de encontrar para elas a expressão pela qual a disposição subjetiva do ânimo daí resultante, enquanto acompanhamento de um conceito, pode ser comunicada a outros. (Id., p.175).
“Se depois destas análises lançamos um olhar retrospectivo sobre a explicação dada acima acerca do que se denomina gênio, encontramos: primeiro, que ele é um talento para a arte, não para a ciência, a qual tem de ser precedida por regras claramente conhecidas que têm de determinar o seu procedimento; segundo, que como talento artístico ele pressupõe um conceito determinado do produto como fim, por conseguinte entendimento, mas também uma representação (se bem que indeterminada) da matéria, isto é, da intuição, para a apresentação deste conceito, por conseguinte uma relação da faculdade da imaginação ao entendimento; terceiro, que ele se mostra não tanto na realização do fim proposto na exibição de um conceito determinado, quanto muito mais na exposição ou expressão de ideias estéticas, que contêm uma rica matéria para aquele fim, por conseguinte ele representa a faculdade da imaginação em sua liberdade de toda a instrução das regras e no entanto como conforme a fins para a exibição do conceito dado; quarto, que a subjetiva conformidade a fins espontânea e não intencional, na concordância livre da faculdade da imaginação com a legalidade do entendimento, pressupõe uma tal proporção e disposição destas faculdades como nenhuma observância de regras, seja a ciência ou da imitação mecânica, pode efetuar, mas simplesmente a natureza do sujeito pode produzir.” (Id., p.175-176).
“De acordo com estes pressupostos, o gênio é a originalidade do dom natural de um sujeito no uso livre de suas faculdades de conhecimento. Deste modo, o produto de um gênio (de acordo com o que nele é atribuível ao gênio e não ao possível aprendizado ou à escola) é um exemplo não para a imitação (pois neste caso o que aí é gênio e constitui o espírito da obra perder-se-ia), mas para sucessão por um outro gênio, que por este meio é despertado para o sentimento de sua própria originalidade, exercitando na arte uma tal liberdade de coerção de regras, que a própria arte obtém por este meio uma nova regra, pela qual o talento mostra-se como exemplar. Mas, visto que o gênio é um favorito da natureza, que somente se pode presenciar como aparição rara, assim o seu exemplo produz para outros bons cérebros uma escola, isto é, um ensinamento metódico segundo regras, na medida em que se tenha podido extrai-lo daqueles produtos do espírito e de sua peculiaridade; e nesta medida a arte bela é para essas uma imitação para a qual a natureza deu através de um gênio a regra.

Sendo os Batistas defensores da liberdade, deveriam também ter aprendido a respeitar nesses 400 anos de História, o gosto e a escolha de cada um. Afinal o juízo estético provém do sentimento e é interpretado por ele. Além do mais, caso todos cheguem à mesma conclusão de que a referida exposição possui uma expressão artística de mau gosto, pelo entender kantiano, não deveríamos temê-la, porque ela não seria fruto de um “gênio” e como tal, não produziria escola. Isto equivale a dizer que tal arte, tal exposição, morreria por si só. Por que então esse tipo de embate?

Agrava-se a questão ao perceber que não há uma disposição em termos de manifesto contra a abusiva e extorsiva taxa de juros cobradas pelos bancos (inclusive o Santander), tanto no seu cheque especial, quanto no rotativo do cartão de crédito. Enquanto há famílias inteiras sendo saqueadas de modo institucional, inclusive membros de igrejas batistas que além da crise da empregabilidade ainda precisam se equilibrar diante de juros extorsivos, os Batistas, especialmente seus pastores, se preocupam com questões de moralidade sexual. Ao invés de reiteradamente se pronunciarem contra a corrupção (ao que tudo indica a do Temer, que num certo sentido era também a do governo anterior, é muito pior daquele que foi impeachmado), elegem questões menores (sim senhor!) para poder “fazer coro” com vozes mais conservadoras. Perdem a oportunidade de dialogar por simplesmente respeitar a liberdade do outro, ainda que ela implique em contemplar “sentimentos” de mau gosto. Veja:

“Portanto, tanto a ideia do Império como a das Cruzadas não podiam ter força mobilizadora. Seu papel era o dos mitos revolucionários que conservamos por tradição em discursos sem consequência, em manobras diplomáticas, ou para obter o apoio da opinião internacional. Essa moral unitária não serve um ideal; é simples cortina que oculta ações egoístas, úteis para conquistar opiniões em favor de nossa causa. Maquiavel percebeu bem como pode ser útil um discurso moral fundamentado na tradição mas não efetivamente operativo, pela influência que exerce sobre o imaginário, contribuindo para assegurar o poder. O objetivo é fazer os outros acreditarem na nossa causa. Se falta força, o príncipe recorre à astúcia; as ideias de império, cruzada, defesa da cristandade, religião são cortinas do estrategista político realista, com efeito sobre os ignorantes, manipulados em seu benefício.”
(DUBOIS, Claude-Gilbert. O IMAGINÁRIO DA RENASCENÇA. Brasília: Editora UNB, 1995, p. 177-8).

 

O que Dubois afirma é que por trás de moralismos está a manipulação que procura simplesmente a manutenção do poder. Não há, necessariamente, nenhuma essência espiritual. Sobre o uso do lugar comum, do “imaginário” o próprio Maquiavel via como instrumento de preservação, de permanência do poder.

Isso aconteceu na Ditadura Militar. Época em que mesmo com censura, a pornochanchada mais cresceu, não eram raras os pronunciamentos contra a imoralidade sexual. Esse paradoxo produzido pelos generais ganhou especial contorno numa declaração de apoio ao governo feita pelos batistas em sua Assembléia de 1980, em Goiânia. Numa época em que ainda havia tortura e prisões arbitrárias, os batistas hipotecaram todo o apoio moral e espiritual ao então Presidente Figueiredo, sem fazer uma menção sequer à violência contra o semelhante (DUSILEK, Sérgio Ricardo Gonçalves; SILVA, Clemir Fernandes; CASTRO, Alexandre de Carvalho. A Igreja de Farda: Batistas e a Ditadura Civil-Militar. ESTUDOS TEOLÓGICOS, São Leopoldo (RS), v. 57, n. 1,  p. 205-206,  jan./jun. 2017). Ou seja, pode-se torturar, matar, mas não pode ter pornografia… Ora, se vamos como batistas ser os censores maiores da sociedade, não seria de se esperar que a condenação fosse à tudo que há de errado? Por que só falar da questão sexual? É repressão, incapacidade de lidar com o assunto ou, como disse Dubois, um interesse por manipulação?

O que fica disso tudo? A anacrônica incapacidade batista de dialogar com a sociedade, de aceitar as provocações e desafios que o mundo oferece para, pelo menos, produzir uma reflexão profunda e séria sobre os temas que estão aí, pululando à nossa volta. Ao fazer como o avestruz, esquecem que um grande naco do próprio corpo fica indefeso, à mostra. Ao promoverem uma volta ao seu nascedouro, rejeitam a sua própria tradição e a evolução desta. Do grupo da liberdade e igualdade, um nível mais elevado de organização religiosa, segundo Ernst Throeltsch, os batistas se apequenam se assemelhando a grupos censores. E pior, o fazem por motivos menores (moralidade sexual), esquecendo-se da precípua tarefa de exorcizar os demônios que estão na estrutura sócio-política-econômica deste país, e que muitas vezes se personalizam em seus agentes.

Esperando dias melhores…

Pr. Sérgio Dusilek

sdusilek@gmail.com

 

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