Novos Caminhos, Velhos Trilhos

maio 19, 2017

Emile Zola e a nossa Reforma da Previdência

Filed under: Sem categoria — sdusilek @ 10:44 pm

“Eu tinha só oito anos quando desci pela primeira vez, veja só!, aqui mesmo na Voraz, e já estou com 58. (…) E então? Não é bonito isso? Cinquenta anos de mina, sendo 45 lá no fundo!  (…) Disseram que tenho que descansar – prosseguiu. – Eu não quero, eles acham que sou estúpido!… Gostaria de ficar mais dois anos, até os sessenta, para conseguir a pensão de 180 francos. Se eu pedisse as contas hoje mesmo, eles me dariam logo uma de 150. Eles são espertos, esses safados!” (Germinal, p.16)

“Estão vendo? A gente poderia estar como ele… Não devemos nos queixar, não é todo mundo que tem a chance de trabalhar até morrer” (Germinal, p.34).

Incrível a atualidade destes textos. Embora pudessem ser retirados de qualquer testemunho de trabalhador brasileiro em tempos de pré-reforma radical da Previdência, tais falas pertencem ao romance GERMINAL, de Emile Zola (Editora Estação Liberdade, 2012), sendo a primeira do velho “Boa Morte” e a segunda do “Maheu”. O que elas têm em comum? A exploração cruel do trabalhador francês (não muito diferente dos demais europeus) na segunda metade do século XIX. Não é a toa que esse romance se tornou uma espécie de leitura obrigatória para se entender o contexto da proliferação dos ideais da Internacional Socialista.

Por que escolhi esse texto e essas perícopes? Por conta da similitude com o estado atual do país. Zola retratou a exploração quase servil dos carvoeiros franceses pela burguesia daquele país. Ao pintar esse quadro, mostrou como a exploração se tornou o principal combustível para que as noções de luta de classe, de reivindicação de melhores condições de trabalho (dentre outras), ganhassem o coração dos trabalhadores. Logicamente que Zola também pode ser lido como alguém que fez uma certa crítica à radicalidade dos movimentos sociais, ao evidenciar no texto como a luta despersonalizou e destruiu uma família (falo aqui da casa do Maheu).

Por um lado, gente sobrevivendo no limite do que se pode chamar de sobrevivência. Por outro a frivolidade burguesa. No meio a exploração da sensualidade como único lazer acessível para os miseráveis, e lascivo para os donos do capital. Há traições por comida, mas também há traições pelo outro desejo de comer (se é que voce me entende).

Essa radical reforma da Previdência Social no país, proposta por um governo que já tinha uma discutível legitimidade, remeterá o país numa volta no tempo, à carvoaria européia do século XIX. Isso é injusto, exploratório, além de abrir espaço para revoltas populares e muitas perdas. Não penso aqui em perdas financeiras, contudo naquilo que é incalculável, que é a vida humana. Nosso caminho tem de ser sempre o da paz, até mesmo na hora do confronto (algo como Gandhi se propôs a fazer). Do jeito que está a Reforma, o Brasil se torna a grande Voraz, a mina que engolia os trabalhadores e que Zola retrata em seu clássico. Não dá para apoiar algo desumano. Afligir milhões de pessoas é obra demoníaca, é sinal da presença de Satanás nas estruturas de poder do país.

Não duvido que haja algo para reformar na previdência brasileira; contudo não posso aceitar essa reforma draconiana, eivada de mentiras, e promovida por gente que não está preocupada com o povo, mas sim com uma dificuldade para adquirir novos e propinescos ganhos, como revelado na delação dos sócios da J&F e em tantas outras.  Perceba que esse elemento draconiano se dá num momento em que o povo clama por oportunidade de trabalho, assim como Zola mostrou no pensamento de Maheu, o qual foi citado mais acima). Por que não melhorar a gestão? Por que não parar de roubar, ou pelo menos, de roubar tanto? Acho que sobraria dinheiro para cobrir o alegado (que também descreio) déficit da Previdência.

Aliás, sobre esse assunto da corrupção,  tenho visto alguns dizerem que a exposição da corrupção é sinal da visitação de Deus sobre o Brasil. Particularmente não sou muito simpático a esta ideia, pois a ação de combate à infecção da corrupção parte do próprio e laico Estado. Além do mais, Deus começa o julgamento, segundo o texto bíblico, pelos de dentro… e tem muito líder que se diz cristão andando por aí tortuosamente, num movimento serpentino…

Entretanto, a única coisa que me dá esperança de uma ação divina é a “coincidência” da eclosão dessa última fase da Lava-jato com o período em que tal reforma seria empurrada goela abaixo. Perceba, a reforma da previdência não alivia o empresariado, nem traz benefícios para o trabalhador. Ela traz recursos para o governo… porém este mesmo governo fatura pouco??? Acho que não… É por isso que até Zola, não sendo cristão, expressa no seu romance um celestial feixe de discernimento:

“(…) porque não é com a permissão de Deus que jogam tantos cristãos na rua da miséria.” (p.13)

Leia o Germinal de Emile Zola. Seja contra esta reforma que aí está. Pois é nela que o Diabo se transfigura em “Voraz”.

Pr.Sérgio Dusilek

sdusilek@gmail.com

 

 

 

 

 

 

 

 

Anúncios

Deixe um comentário »

Nenhum comentário ainda.

RSS feed for comments on this post. TrackBack URI

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Crie um website ou blog gratuito no WordPress.com.

%d blogueiros gostam disto: