Novos Caminhos, Velhos Trilhos

outubro 7, 2016

ENTRE DESTROÇOS E DESTROÇADOS (Ez.37:1-6,14)

Filed under: Sem categoria — sdusilek @ 7:14 pm

Na vida passamos por momentos bem difíceis. Por vezes um furacão vem sobre nós justamente no período em que ainda estamos tentando nos refazer do grande terremoto que sofremos. Sim, a vida não é só feita de um doce velejar dos Schurmann, mas também de enfrentamento e superação de cataclismas.

O problema é que ao enfrentar os cataclismas da vida, somos revirados e destroçados. Não raras vezes carregamos os destroços conosco por anos a fio. Eles apodrecem, mas seguem como testemunhas silenciosas do nosso infortúnio. Incomodam, mas quem vai retirá-los? Como fazê-lo? Sem falar que uma parte de nós de maneira mórbida gosta de manter esses reflexos do caos por perto… numa espécie de corroboração narrativa, de vestígio da história (como nos lembra Marc Bloch).

Contudo, pode haver recomeço para quem habita no meio dos destroços? Pode haver recomeço para alguém que se percebe preso à experiência do destroçamento pela qual passou lá atrás? Sim, porque para alguns o corpo seguiu, mas a alma… ah! Esta segue presa a esse passado devastador.

Se perguntarmos aos amigos pode ser que a resposta transite entre o sim e o não. Alguns terapeutas podem arriscar uma ajuda para a convivência. Porém, se sua consulta fosse feita ao Profeta Ezequiel, possivelmente ele iniciaria a conversa por essa visão do capítulo 37, que para muitos representa o coração do Velho Testamento.

Ezequiel teve a visão da derrota do povo de Deus, cerca de 3 anos após a destruição de Jerusalém (584 a.C foi a época da visão) por Nabucodonozor. Mas não era só uma visão. Foi a mão do Senhor que chegou sobre Ele (v.1). A mão do Senhor aponta para um Deus que não quer somente mostrar as coisas, mas que quer fazer, transformar uma realidade destruída pelo pecado.

Imagino como foi difícil para o profeta entrar na visão de Deus, andar pelo meio do vale de ossos secos, local de batalha, de derrota, de reprovação do povo, mas também de falta de vida, de extrema dor. Pisar e esfarelar aquilo que representou um dia o povo de Deus era muito ruim para um profeta tão sensível à Deus, mas também ao seu povo. Sua visão descortinava o que tinha acontecido: foi o pecado a causa de todo aquele sofrimento. Foi o pecado que secara os ossos (pecado é pior que osteoporose – (Salmo 32:3), e que tirou a estrutura espiritual e de vida do povo. Sim porque os ossos estão relacionados à estrutura que nos foi dada ou que construímos.

Como a renovação, a reconstrução chega a nossas vidas?

  • Pela Palavra do Senhor (v.4)

Podem ossos ouvir? A figura bíblica mostra que por vezes somente quando alguém está destroçado é que se volta para Deus, que se dispõe a ouvir a Palavra de Deus. A visão de Ezequiel foi de um povo destruído na sua vida, e esse destroçamento foi causado pelo pecado. Pecado seca a vida, esfarela nosso ser.

Nosso conserto está no concerto/aliança. E ela se estabelece pela Palavra do Senhor. É quando em meio aos nossos destroços, no meio de nosso destroçamento, ouvimos a Palavra do Senhor. Não foi isso que aconteceu com Lázaro (João 11)?

Não há recomeço sem Palavra de Deus. Pode haver tentativa, o que normalmente representa uma nova construção, um novo investimento, só que sob escombros.

  • Pelo Espirito de Deus (v.5,14)

Não é só o fôlego da vida que aponta para a alma/anima. Não se trata só do espírito humano. O contexto do texto fala um recomeço do povo do Senhor a partir da ação do Espírito de Deus.

A questão que se levanta é: o povo de Deus pode perder o Espírito? Não desde Atos 2, naquilo que ficou conhecido, no Pentecostes como a democratização do Espírito, agora derramado sobre todos os que crêem. Contudo há uma linguagem bíblica que denuncia se não a perda, a extinção. Veja, em Pentecostes o Espírito veio como línguas de fogo; em Tessalônica o Espírito estava sendo apagado (I Ts.5). A desobediência, o pecado de um modo geral, resfriam a ação do Espírito, a ponto daquilo que era para ser altamente dinâmico, se tornar esquecido. Em suma, não se perde (Ef.1:13-14), mas vive-se como se o Espírito não estivesse mais ali.

A vida está no Espírito. Vem dEle e é nEle que nos movemos e existimos. Ao receber o Espírito, a vida de Deus passa a ser a nossa.

  •  Pela restauração da sensibilidade (v.6)

Os recomeços de Deus e com Deus não são um convite à insensibilidade. Antes, eles representam uma restauração da sensibilidade. Nervos, carne e pele são novamente revestidos e colocados sobre aqueles buracos deixados pela vida. Contudo os novos nervos, carne e pele já não transmitem mais a dor do destroçamento, e sim o frescor da comunhão com Deus.

A falta de sensibilidade pode ser inclusive um indicador de que você está destroçado (ou abraçado aos destroços), mas ainda não percebeu, assim como muitos do povo de Deus naquele tempo.

Sensibilidade é a última etapa. Sensibilidade é sinal da presença da Palavra. Sensibilidade é indicativo da vida no Espírito. Insensível é quem foi reduzido a osso seco. Não há coisa pior do que o povo de Deus que não se torna sensível e aberto para os clamores e desafios do mundo, bem como para ouvir a Palavra e viver no Espírito. Povo que não responde aos apelos é povo que está se tornando insensível.

Quero finalizar com a pergunta de Deus para um ressabiado, contudo esperançoso profeta. “Poderão reviver esses ossos secos?” Será que poderá haver recomeço em meio aos destroços?

“Senhor Deus, tu o sabes.” (v.3b)

[Pr.Sérgio Dusilek – sdusilek@gmail.com]

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