Novos Caminhos, Velhos Trilhos

agosto 23, 2016

A MISSÃO DA IGREJA

Filed under: Sem categoria — sdusilek @ 11:49 am

“Moisés disse ainda: Rogo-te que me mostres a tua glória. Respondeu-lhe o Senhor: Eu farei passar toda a minha bondade diante de ti, e te proclamarei o meu nome Iavé; (…) E quando a minha glória passar, eu te porei numa fenda da penha, e te cobrirei com a minha mão, até que eu haja passado. Depois, quando eu tirar a mão, me verás pelas costas; porém a minha face não se verá.”(Êxodo 33:18,19a,22-23).

 

Possivelmente você esteja se indagando agora qual seria a relação da passagem acima com a missão da Igreja. Eu também estaria me perguntando a mesma coisa caso estivesse na sua posição. E meu objetivo é que até o final desse pequeno texto sobre este abrangente tema, você consiga compreender o que entendo sobre a missão da Igreja.

Sem esquecer que o texto acima figura a sombra que é a Lei (Heb.10:1) e prefigura a promessa da vinda e visualização da face de Deus em Jesus (João 14:7-11), fato é que muito do que fazemos em nome de Deus e para Ele advém de nossa percepção, de como O vemos. Em outras palavras a visão da missão da Igreja passará necessariamente pelo funil de nossa percepção, daí resultando uma postura mais abrangente ou até, restringente. Contudo, cabe aqui a indagação: nós podemos ou mesmo devemos restringir a missão da Igreja?

A resposta parece ser clara: na tese, não; na prática, sim, lembrando que toda restrição é uma maneira de não acabar ou mal acabar a obra de Deus. As lacunas que existem no cumprimento da missão da Igreja, via de regra são fruto de nossa limitada percepção de quem Deus é e de quão grande, diversificada é a missão da Igreja. Até mesmo a indisposição e falta de envolvimento de muitos com a obra advém de uma percepção, por sinal limitada e em muitos casos instrumentalizadora do divino. São os nossos enquadramentos, nossas tentativas de “fotografar”, de ter uma forma de Deus. Ocorre que desde o início da Palavra, temos um Deus não adepto à “selfie”, um Deus que não se deixa formatar, seja no aspecto “fugidio” da narrativa mosaica, seja na abrangência incontida da vida, obra e ensinos de Jesus de Nazaré, cujo símbolo maior é o sepulcro vazio. Até mesmo a revelação especial que recebemos, e que fazemos bem valorizar (falo da Bíblia), não consegue enquadrar todo o conteúdo revelado, uma vez que a própria Revelação é maior que o registro (uma das razões pelas quais a Palavra se renova diante de nós com tanto vigor e novidade).

Se é verdade então que nossa percepção, e portanto teologia, podem representar uma tentativa de enquadramento do divino, devemos sempre lembrar também que Deus continua estando muito além dessa “foto teológica”. Nosso enquadramento sempre mostrará, se tivermos sucesso como Moisés, um “Deus de costas”. Justamente por isso prefiro adotar (e sugerir) a compreensão de Deus como Espírito (João 4), uma vez que ela aponta para imprevisibilidade de Deus, não aqui em termos de caráter divino, mas em termos de ação e de agenda para Sua Igreja. Uma ação que é feita sob o espírito de serviço (diaconountes), na extensão de alguém que cumpre/administra com excelência aquilo que lhe foi passado (oikonomoi), debaixo da legítima unção divina (karisma), e com escopo abrangente, multiforme (poikíles) da Graça (karitos) de Deus (I Pe.4:10). Interessante como Deus usou o pescador Pedro para juntar numa mesma formulação tantas palavras que nos são comuns no serviço do Rei.

Penso que a Graça não tem um formato porque ela é a expressão de Deus. Penso que essa Graça multiforme revela a grandeza de um Deus que se preocupa com a individualidade, a ponto de autenticar cada experiência de conversão como única. Penso que multiforme Graça de Deus reflete Seu Reino, de cujas marcas destaco a impossibilidade de enquadramento. Isso porque o Reino é como o Rei: informável. Penso também que a multiforme Graça de Deus aponta para as mais variadas capacitações e formas de exercer a vontade de Deus e cumprir a missão da igreja nesse mundo. Não há uma única maneira de servir a Deus no mundo; há várias e em todas elas sinalizamos o amor e a Presença do Rei.

Quais as implicações dessa compreensão? Inúmeras, complexas, revisionistas em termos de nossa agenda como igreja. Mas também: desafiadoras, apaixonantes, abrangentes e produtoras de experiências com Deus. Isso porque a missão da Igreja é feita pela Graça e sua agenda é dada pelas necessidades do mundo. Não cabe a Igreja enlatar a Graça divina, transmitindo-a somente de um modo para uma mesma necessidade. A Graça não se traduz somente em folhetos evangelísticos, mas numa diaconia, num serviço ao mundo, seja na promoção da justiça, seja nas ações emergenciais, seja no acolhimento de refugiados, exercendo o dom da hospitalidade tão bem assinalado por Pedro (I Pe.4), entre tantas outras. Cabe a ela ler a realidade, acolher os desafios e necessidades que estão à sua volta e manifestar, por se deixar usar, a multiforme Graça de Deus. Cabe a ela agir como o samaritano (Lc.10): manifestar graça diante de uma necessidade. Perceba que para Jesus, a agenda fora dada pelo mundo (suas necessidades); mas a capacitação é dada por Deus (Graça, seja na forma de karitos ou de karisma).

Se você achou essa missão muito vasta e grande é porque então compreendeu bem o texto e por isso lhe parabenizo. E ressalto também que uma missão abrangente tem o tamanho do Reino e a “cara” do Rei, sendo este o compromisso social da Igreja.

Pr.Sergio Dusilek

sdusilek@gmail.com

[Publicado no O Jornal Batista, Edição 34 de 21/08/2016, p.14]

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