Novos Caminhos, Velhos Trilhos

junho 8, 2016

O NOVO ELDORADO DA FÉ e seus predadores

Filed under: Sem categoria — sdusilek @ 3:14 pm

Ontem ouvi de um pastor que possivelmente Ana Paula Valadão e o esposo trocarão o bairro nada agradável da Lagoinha em Belo Horizonte, pelo paraíso que é o Recreio dos Bandeirantes na capital fluminense. Até aí nada de tão estranho, pois quem conhece mineiro sabe da predileção que este cativante povo, chamado mineiro, tem pela praia. Além do mais… pensa bem… Lagoinha-inha-inha-inha atrás e o MAR à frente… chega a ser injusto, não é mesmo? Contudo essa vinda não seria para uma aposentadoria precoce, mas para abrir uma filial da Lagoinha pro lado de cá da poça. É certo que cada um pode abrir uma igreja onde quiser, ou melhor, onde Deus apontar. Mas por que todos os caminhos levam para a região da Barra-Recreio, esse novo Eldorado da fé?

É verdade que há muito espaço e gente precisando de igreja. A estratégia de algumas igrejas estabelecidas há mais tempo na região de querer entupir seus corredores ao invés de plantar novas congregações acabou revelando sua debilidade nesses movimentos de chegada de outras denominações ou de surgimento de igrejas/empresas-familiares (aquela em que, se Deus dá uma direção espiritual para os encontros e rituais, nos desencontros da dimensão eclesiástica as soluções e proposições não são congregacionais, mas conjugais e, quando muito, familiares (leia-se: família do fundador). O fato persiste: num local de franco crescimento imobiliário, há muitos lugares que podem receber uma nova igreja, ou até mesmo aquilo que se diz igreja.

O Eldorado está especialmente ligado a outro fator que é o poder aquisitivo da futura membresia. São pessoas, na sua grande maioria, com um poder aquisitivo acima da média. Ora, isso aguça o interesse de muitos plantadores de igrejas e denominações que pensam como corporações eclesiásticas. Nesses casos, a definição de onde plantar uma filial está em estreita ligação com a taxa de retorno do investimento. Não é o que Deus diz, mas o que o negócio, ainda que eclesiástico, manda. Por isso ao plantar uma filial em Niterói, por exemplo, a Lagoinha não procurou fazê-lo no Barreto, ou mesmo no Fonseca e em outros bairros mais humildes. Ela foi para locais mais abastados, começando por Icaraí. E isso não é porque Deus mandou. Bom, pelo menos não o mesmo Deus a quem nós (eu e você) nos referimos. Foi por divina orientação de Mamom mesmo.

Há que se considerar a mentalidade aberta das pessoas desta região. Como boa parte é emergente, são pessoas que trazem consigo a simplicidade da vida suburbana, conquanto gostem do conforto (e fazem muito bem) que locais mais privilegiados sinalizam e propiciam. Em tese, se impressionam com a religiosidade do espetáculo, com os cultos-entretenimento porque foi essa classe e geração ascendente que projetou e acolheu os “stand-up comedy”. Por isso para ela, igreja boa é aquela com boa acomodação (ar e assentos estofados), louvor psicodélico com luzes e gelo seco e a pregação em formato de stand-up comedy em que vale a veia cômica do pastor, a capacidade dele em fazer o povo rir. Não é a toa que os espaços de culto deixaram de ser Templos e se tornaram teatros. Se não fosse a iconoclastia notadamente presente nos movimentos puritanos pós-Reforma Protestante, dificilmente se poderia conciliar a reverência da arte sacra com essa banalização e bestialização do espaço sagrado que ocorre em nossos dias.

Essa mentalidade possui um caráter provinciano por conta de sua origem. Isso faz com que a importância de alguém seja dada não por aquilo que ela é ou significa para nós, mas por sua visibilidade, o que na indústria cultural atual é forte indicador de sua popularidade. Por isso pessoas correm atrás de “famosos” e igualmente por isso os que não têm fama buscam “seu lugar ao sol”. Justamente por isso é que as pessoas são levadas de um lado para outro, em busca do famoso do momento.

Nessa esteira está parte dos cantores da MK os quais, um após o outro, vão abrindo suas igrejas e vendendo seus produtos religiosos nesta região. Curso de jejum a R$50,00, apostilas, os próprios CD´S e outros. Não são pastores, não têm formação teológica alguma o que os faz dizerem as maiores besteiras as quais adoecem espiritualmente e emocionalmente os crentes, nem tampouco são exemplos de fé, de vida, de integridade. Mas possuem a capacidade de ministrar o louvor e algum bom-senso para administrar as pessoas. No entanto, o seu grande diferencial está na capacidade de desenvolver uma marca, assim como na ausência de amarras, sejam elas teológicas, morais, ou mesmo de conhecimento bíblico, que os permite transitar oferecendo ao povo o que este quer e não o que Ele manda.

Já se perguntou o porquê desses grupos e artistas, que possuem recurso para investimento, não iniciarem seu trabalho pela Zona Sul Carioca, especialmente por Ipanema e Leblon? É simples: mesmo com toda fama, eles seriam desprezados. O sangue “a-Sul” não se interessa pelos indicativos da visibilidade, pois eles são os visíveis (ainda que muitas vezes invisíveis!). Não foram eles que deram espaço para o stand-up comedy, embora também curtam, porque naquela mentalidade, teatro é melhor que apresentação individual. O humor desse pessoal da zona sul é embalado por Marco Nanini e não por Paulo Gustavo. O gosto, a capacidade crítica, a percepção da cultura e de suas formas de manifestação são diferenciados de mais para serem equalizados pelas fórmulas repetitivas e cansativas presentes no discurso e modelo organizacional dessa turma. Num local desses, MK, Lagoinha e outros, possuem parcos índices de adesão. O discurso desses grupos está muito longe da realidade de vida daquela turma. As últimas besteiras antológicas que Ana Paula Valadão (cante minha filha! Pare de falar! Deus mandou você cantar!) andou dizendo soariam como um atestado de asnice para gente culta, descolada e com larga experiência transcultural como a turma de Ipanema  Leblon.

Talvez você a essa altura ache que eu deva estar preocupado com esse movimento, afinal faço parte da liderança de uma igreja batista nessa região (www.igrejamarapendi.org.br). Falar que não estou preocupado seria uma mentira; contudo minha preocupação não é necessariamente a mesma a que talvez você se refira. Ela está ligada ao Evangelho do Reino que tem densidade e força para adentrar as camadas mais espessas da realidade e transformar o mundo a nossa volta. Só que acho difícil que isso aconteça no meio de igrejas-corporações, de predadores religiosos, pois trabalham para arregimentar gente salva e integrada. Quando você percebe que mais coisa estranha ao Evangelho, que mais entretenimento gospel tende a aportar por aqui, dá um frio na espinha, pois mais gente machucada, desesperançada vai ser enviada por Deus para ser cuidada pelos reais pastores da região.

Na linha da preocupação então, devem estar tensos todos aqueles líderes religiosos que estão fazendo mais do mesmo. Ora, se todos estão em células; se todos procuram ter um culto emotivo com alta dose de entretenimento; se todos são “operados” pelos mecanismos religiosos da culpa e do medo; se todos estão envoltos numa cultura de massa, sem o cuidado pessoal-pastoral com as “ovelhas”; e se estas igrejas promovem a imaturidade espiritual, não estimulando seus membros à reflexão, a pensarem sua fé (I Pe. 2:15), mesmo porque assim seus líderes se tornam isentos de avaliações e críticas; quando se ouve sobre a possível chegada de uma organização religiosa “concorrente” (sim minha querida leitora, no ambiente de igrejas-empresas que mantém pesados departamentos de marketing não há cooperação e sim concorrência) que é “benchmarking” é preciso temer (segundo e seguindo a lógica deles).

O fato de termos uma pegada mais de igreja batista, segundo minha impressão, faz com que não tenhamos um crescimento explosivo, mas faz com que criemos relações proximais, consistentes e duradouras. O fato também de não adequarmos nossa pregação; de não “oferecermos” mais do mesmo (nem todos que nos visitam ficam, mas os que ficam tem motivos para ficar); de não tratarmos a igreja como massa de manipulação; de convidar e oferecer insumos para a maturidade espiritual, para a reflexão; de ter a porteira aberta a ponto de entender que possivelmente os membros visitem ou visitarão essas outras igrejas (embora possa estar iludido pensando que lá não ficarão); o fato também de muitos terem se machucado nesse formato que não é a Igreja como preconizada no Novo Testamento; me permite pensar como líder de um grupo que isso não fará parte do nosso horizonte de preocupações aqui. Destaca-se também o background desse processo que é a certeza de que lideramos uma Igreja de Jesus, procurando viver Seu amor e com temor a Ele. Tenho descoberto que o maior interessado na sobrevivência, existência e expansão da Igreja Batista Marapendi é o próprio dono dela: Jesus.

Termino dizendo que oro para que esse processo que nada tem a ver com Deus, mas sim com uma visão mercadológica do universo religioso e da expansão desse mercado, em algum momento pare. Que a plantação de igrejas em tantos locais necessários continue sendo feita, mas não por predadores da fé e sim por gente temente a Deus. E que aqueles que se sentem ameaçados ou prejudicados com notícias e atitudes como as que citamos, que seja uma oportunidade para rever a travessia eclesiológica. Afinal, não fomos chamados para sermos “CEO´s” de corporações religiosas, para “montarmos igrejas herbalife”, mas sim para sermos pastores, ou se preferir, assistentes do jardineiro que é o nosso Pai (João 15:1).

Pr.Sergio Dusilek

sdusilek@gmail.com

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2 Comentários »

  1. Muito bom! Tocou em verdades que outros não o querem fazer, mas a verdade é assim, como escreveu Russell Lower, “vive na forca, enquanto a mentira repousa sobre o trono”.

    Abraços meu amigo.

    >

    Comentário por Arlecio Junior — junho 8, 2016 @ 3:44 pm | Resposta

  2. Parabéns pastor! É exatamente o que penso!!

    Comentário por JOSIANE GIL DA COSTA — janeiro 28, 2017 @ 6:16 am | Resposta


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