Novos Caminhos, Velhos Trilhos

janeiro 21, 2016

É DIFÍCIL VOLTAR ATRÁS.

Filed under: Sem categoria — sdusilek @ 6:34 pm

Há pouco tempo atrás conseguir ter uma desejada conversa com um pastor outrora próximo a mim. Ele havia feito algo em minha ausência que muito me entristecera. Esperei então um tempo para nossos caminhos se cruzarem. Como isso não acontecia, optei por usar um evento que viabilizasse nosso encontro. E assim foi feito.

Ocorre que na conversa ficou patente a dificuldade dele (e de cada um de nós) de voltar atrás, de reconhecer o erro. Ao invés de só ouvir e reconhecer, houve uma contraofensiva, como se quisesse ofendê-lo em algum momento (mesmo tendo sido ofendido).

É difícil voltar atrás. E isso se torna ainda mais complicado entre aqueles que se julgam mitos, que acreditam no personagem que criou ou que foi criado (tipo Lula se colocando como paradigma de honestidade do Brasil). Isso porque humanos voltam atrás, reconhecem seus erros, seus atropelos, dificuldades; humanos pedem perdão, pois isso faz parte da existência. Já os mitos… bem, eles por definição são infalíveis. E por necessidade de subsistência precisam cultivar a distância, pois a proximidade sempre revela a condição humana que nos é inerente.

Talvez seja esse um dos motivos (o outro mais plausível deve ser a estranha dieta que tinha-Mt.3:4) pelo quais João Batista pregava no deserto (Mt.3:2). Ele falava em arrependimento (grego – metanóia), em voltar atrás, em reconhecer que não está certo. E esse conteúdo sempre será démodé, distante dos grandes centros e da visibilidade e marketing humano. Contudo o coração de Deus se volta para corações quebrantados, contritos, que decidem voltar atrás. De fato há grande visibilidade divina nisso.

Voltar atrás aqui então é assumir o peso. Peso do erro, do pecado, do caminho errado, da culpa. Voltar atrás é uma decorrência da consciência ética. Por isso que a culpa, para nós que fomos alienados (Paulo; Tillich) é uma benção divina, pois nos permite voltar atrás, nos arrepender e escolher o caminho correto. E ele tem cinco letras no nosso idioma: JESUS.

A volta atrás, a metanóia, o arrependimento tem ligação com o tempo. Se voltamos, ou podemos em algo voltar, é porque o tempo, ou ainda a natureza de nossa decisão pretérita, pode ser revertida. Isso traz a alegre possibilidade de consertar o concerto. Contudo também nos remete às coisas que não dão mais para voltar atrás, que o tempo se incumbiu de cobrir. Recordo-me aqui de um querido irmão que era divorciado há alguns anos e que viu numa piedosa irmã da igreja a possibilidade de recomeçar sua vida conjugal. Namoraram e ao noivarem, comunicaram à liderança da Igreja Batista onde estavam a decisão pelo casamento. Pois não é que a liderança daquela Igreja mandou aquele homem retornar à esposa e pedir a ela para voltar??!!! Ele argumentou que era absurdo, mas de tão crente que é foi. A ex-mulher… bem, chamou-o de doido, maluco, e disse para abandonar a “religião” porque estava fazendo mal a ele… e tenho que concordar com ela. Aquela forma religiosa, ainda que nominalmente Batista, de fato fez muito mal a ele.

A ligação temporal da metanóia, da volta com o tempo traz duas importantes lições para nós: a) procure decidir pela razão para que suas escolhas não traiam você e para que aquilo que você faz seja passível da menor revisão possível, afinal há coisas que depois de vividas, ditas, não têm mais volta. Por vezes o tempo encobre (como Davi chorando sobre o caixão de Absalão, seu filho); b) naquilo que for possível voltar atrás, volte! Não espere a reação do outro. Obedeça aqui seu coração. Se para escolher devemos ouvir a razão, para voltar devemos auscultar o  coração.

É difícil voltar atrás, não há popularidade nem capilaridade nisso, mas esse arrependimento, essa metanóia, implica em entender o que está além. O prefixo grego aqui meta pode ser lido como mudança de mente, mudança de direção, tendendo para a conversão. Só que meta é também usado com o significado de além. Metafísica é aquilo que está além da physis, do plano físico, do mundo concreto, sensível. Voltarmos atrás então não é retrocesso, e sim ir além. Não é demérito, mas sinal de grandeza. Não tenha medo de voltar atrás; tenha pavor de insistir no erro.

É difícil voltar atrás mas é recompensador. Incrível que o grande filósofo do século XX, Martin Heidegger, tenha baseado seu pensamento metafísico na Kehre (alemão = volta, retorno). Para ele, para se entender ou captar as emanações do Ser era preciso fazer uma voltar desprezado toda a metafísica produzida de Sócrates para cá. De modo análogo e interessante, e bem anterior a Heidegger, João Batista dizia algo semelhante. Ao proclamar “arrependei-vos, porque é chegado o Reino dos céus” (Mt.3:2) ele institui o passo, a volta atrás como meio de visualização, compreensão e captação do Reino. No dizer dele o Reino já tinha chegado… por que então as pessoas não conseguiam vê-lo? Porque é necessário dar um passo atrás. E esse passo se identifica como arrependimento, como assumir a condição de indigno. Num contexto em que a cultura secularizada convida a todos a provarem seu valor, sua dignidade, o cristianismo afirma a dignidade da criatura humana e o evangelho a restauração dessa dignidade.

Quem volta atrás, quem tem disposição para rever e coração para consertar está próximo do Reino. Essa verdade é ou não é alentadora, compensadora?

É difícil voltar atrás, mas o amor suplanta essa dificuldade. Porque amamos damos um passo atrás. Por que descobrimos que somos amados damos um passo atrás. E aqui está o âmago do arrependimento. Não mudamos nossa mente porque Deus pode fazer a terra tremer; abrimo-nos para a mudança celestial porque o amor de Deus faz nosso coração enternecer. Voltar atrás pelo medo produz acondicionamento e condicionamento que se exteriorizam em mera religiosidade. Agora quando há um arrependimento motivado pelo amor, aí reside toda a mudança e toda transformação divina operada no coração humano.

É difícil voltar atrás. Não há muitos amigos e conselheiros ao nosso redor dizendo para fazermos isso. Mesmo porque para ouvirmos a voz do convite ao arrependimento é preciso que estejamos sós, no deserto. Contudo é preciso para que coisas e relacionamentos sejam consertados; para que exerçamos nossa consciência ética e assumamos o peso dos nossos atos; para que entendamos o que está além de nós, pois há muitas coisas que nos transcendem e que vão desde valores às pessoas e passam pela realidade espiritual, pelo espectro religioso. Volte atrás para expressar amor. Volte atrás para que você experimente o maior amor disponível nesse mundo: o amor de Jesus.

 

Pr.Sergio Dusilek

sdusilek@gmail.com

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